Artigo completo sobre Envendos: onde o Tejo e o Ocreza abraçam o território
Entre dois rios e dezanove aldeias, a freguesia de Mação guarda pontes romanas e termas sulfúreas
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O ar da manhã cheira ao Ocreza mesmo antes de o ver: mistura de xisto molhado e folhas de medronheiro pisadas. A primeira coisa que se ouve são os cães da Zimbreira a discutirem-se de porteira em porteira; só depois o sino da matriz, quando o sacristão acorda para a missa das sete. As casas de Envendos não “se agarram” às encostas — foram colocadas ali por quem percebeu que o soalho é mais plano no meio do vale e que, se o telhado for apontado a nascente, a ágida não entra pela porta.
As curvas que a estrada não conta
O mapa diz nove mil hectares, mas quem cá nasceu mede distâncias em curvas de nível: são três para cima desde o Ocreza até ao Alpalhão, depois duas para baixo até à Ladeira onde a água é quente e cheira a ovo cozido. A ponte romana não é “romana” — é medieval, feita de saibro local, e o miolo das pedras ainda guarda pegadas de quem ali passou com sapatos de sola de cortiça durante a colheita da amêndoa. A estrada municipal 1103 corta o concelho ao meio; quem segue pela 1103 vê sempre a mesma paisagem duas vezes: à ida e à volta, porque o olhar desce mais depressa do que sobe.
A igreja que perdeu o seu senhor
A matriz tem o tecto de madeira pintado de azul-celeste com estrelas douradas que se descascam. Dizem que foi o pintor de Sardoal que veio cobrar com uma galinha e dois alqueires de trigo; morreu sem ver o dinheiro. A cruz da Ordem de Malta, lá fora, serve de marcação aos motoristas de camião: quando a vêem, desaceleram porque sabem que a curva a seguir tem um buraco que rebenta o pneu traseiro direito. Dentro, o confessionário de madeira de carvalho cheira a cera de abelha e a roupa guardada; o padre só vem de terça a domingo, por isso as velas acendem-se sozinhas e apagam-se quando o vento traz a porta a bater.
Água que engorda e água que leva
As termas da Ladeira funcionam de segunda a sexta, das 8 às 18 h. Entrada: 3 €, toalha extra: 1 €. A água, a 34 °C, alivia a reumática da Dona Alda que lá vai de segunda-feira religiosamente desde 1987. O tanque de imersão é de cimento pintado de azul; o cheiro a sulfidrato disfarça-se com um galão de lixívia por semana. Quem não quer pagar, mete o pé na bica que serve a fábrica da Galão — a mesma água, só que fria, e dá para lavar o jeep. O Tejo, aqui, é de areia miúda e pedra plana; as gaivotas roubam os peixes-espada aos pescadores de linha que vêm de Carvoeiro. O Ocreza, dois quilómetros acima, tem um poço onde os miúdos se atiram de cabeça no Verão; o fundo é de lama e há uma bicicleta enterrada de que só se vê o guiador.
O que a boca sabe antes de pensar
O azeite é Galega, mas também se mistura com Cobrançosa quando o Outono é seco. A lagar da cooperativa fica ao lado do cemitério; quando as mós começam a ranger, as velas das campas tremem. O cabrito vai ao forno de lenha domingo de manhã; quem não tem lenha, vai buscar ao monte do Sr. Aníbal, que deixa desde que se devolva um saco de casca de castanha para a sua salamandra. O enchido de sangue leva cravejo da horta; a morcela leva cebola de Alpalhão, que é mais doce. O pão de testo faz-se em cima do tacho de ferro que a avó guarda dentro do forno; quando está pronto, marca-se com o garfo em forma de cruz para o “Santinho” não levar.
Oito e quatro, mas nem todos de cada vez
Oitocentos e quatro, mas na prática são menos: três emigraram para França em Janeiro, dois foram estudar para Lisboa e não voltaram, um morreu na sexta passada. Na taberna do Zé Manel cabem quinze pessoas; se forem mais, abre-se a porta da cozinha e põem-se a mesa das esquentadoras. Quando a EDP corta a luz, vai-se todos para a praça — há sempre alguém com gerador que carrega o telemóvel em troca de um copo de aguardente. O autocarro escolar passa às 7h42; se perder, é a mãe da Beatriz que desce de Renault 4L e leva os três mais pequenos. À noite, o céu é tão escuro que a Via Láctea deixa sombra; os cães ladram às estrelas, mas é só por hábito.
O sol esconde-se atrás do cabeço da Ameixoeira e a temperatura cai cinco graus em dez minutos. Acendem-se os candeeiros de mercurio, um a um, como se alguém os fosse acordando. Fica o cheiro a lenha de sobreiro queimada, o som do Ocreza a levar pedras pequenas, e o sabor de azeite novo na boca — amargo, porém doce, como a terra que o fez.