Artigo completo sobre Caxarias: onde os dinossauros deixaram rasto na pedra
Freguesia de Ourém preserva pegadas jurássicas e tradição oleícola entre olivais e calcário
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O calcário aflora aqui em prateleiras que parecem feitas à medida de quem gosta de se sentar a meia altura, entre oliveiras. Cá para mim, é como se a pedra tivesse sido esculpida por um gigante distraído que deixou as pegadas por acaso - e depois ainda por cima teve a lata de desaparecer há 175 milhões de anos. Caxarias fica mesmo ao pé da Serra de Aire, a 150 metros de altura, onde o Jurássico está mais à vista que os telejornais e os olivais descem em sucessão como degraus de um anfiteatro calcário.
Sob os passos dos gigantes
O Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém/Torres Novas ocupa parte do território. Dizem que era aqui a praia de um mar tropical - imaginem-se os bichos do tamanho de autocarros a passear na areia húmida. Hoje as pegadas estão ali, fossilizadas, três dedos grandes como o meu braço marcados na pedra. À luz do fim de tarde parecem até frescas, como se o bicho tivesse passado há meia hora e não à nascença dos tempos.
A aldeia espalha-se por 1803 hectares onde cabem 2136 pessoas - façam as contas, dá quase 118 almas por quilómetro quadrado. É o suficiente para que na cafetaria da vila se saiba quem chegou de fora antes de ele próprio saber onde sentar.
O azeite que nasce do xisto e do sol
Os olivais são o que o mar é ao Algarve - ocupam tudo o que é sítio. Produzem Azeites do Ribatejo DOP, que é como quem diz que não é azeite de supermercado. A vindima das azeitonas vai de Novembro a Janeiro, quando as mãos endurecem tanto quanto o fruto. O azeite que se faz aqui tem gosto a pedra e sol - não é metáfora, é literal: o solo é calcário e o sol não perdoa.
O Caminho de Fátima passa por cá, traz peregrinos com as botas gastas e as almas mais ou menos remendadas. Param à sombra das oliveiras centenárias, enchem garrafas nas fontes, e vão embora sem deixar de ser parte da paisagem - como os burros de outrora, só que com mochila às costas.
O retrato demográfico é o de sempre: 574 pessoas com mais de 65 anos, 270 miúdos até aos 14. Entre os dois extremos está quem ficou ou quem voltou. Há dois alojamentos rurais - pouco mais que nada, mas chega para perceber que alguém descobriu que vale a pena acordar aqui. Vale, sim senhor: o Jurássico está debaixo dos pés, as oliveiras têm mais história que muitos museus, e ao entardecer a pedra aquece como se ainda guardasse o sol dos dinossáurios.