Artigo completo sobre Olival: onde os dinossauros deixaram pegadas na pedra
Freguesia de olivais centenários e fósseis jurássicos entre as encostas de Ourém
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A luz da manhã entra rasgada pela veneziana do café Central, onde o Joaquim já serviu o terceiro bica ao Sr. Domingos. A borra de ontem ainda fica nos copos, misturada com o cheiro do pão que a Amélia tira do forno às sete e meia em ponto — ela abre a padaria antes do cão do Adelino ladrar pela primeira vez. Olival acorda assim: com o ranger da porta do café e o murmúrio dos tractores a aquecer. Mil e trezentos habitantes, sim, mas aqui contam-se pelos apelidos: os Carvalhos na encosta do sol-poente, os Martins no Largo da Igreja, os carros brancos dos Dias que parecem todos iguais.
Sob os pés dos gigantes
As pegadas não estão assinaladas com setas luminosas. O Sr. Artur tem de destrancar a cancela da herdade para mostrar a placa gastina onde se lê "Pegadas de Dinossáurios - 150 000 000 anos". A rocha está lisa de tanta gente a passar os dedos, tentando sentir o relevo que parece um calcanhar humano, só com garras. Nenhum visitante acredita que isto foi lama de praia antes de haia praia. Caminhar ali é pisar lama que endureceu quando aqui havia lagostos do tamanho de vacas. Ninguém leva guide audio; leva-se o neto do Artur que explica como é que o avô encontrou a primeira pegada a lavrar a vinha em 1978.
A pedra do património não é monumental — é o muro que separa a minha terra da tua, feito de xisto que corta os dedos se o pegares sem luvas. É a alminha da Nossa Senhora do Caminho onde se acendem velas de plástico azul porque as de cera derretem no Verão. É a capela de S. Sebastião que só abre no dia 20, quando o padre de Caxarias vem dizer missa e as velhas disputam os bancos da frente como se fossem lugar marcado no autocarro.
Azeite e encosta
O azeite é galego — não o dizemos alto, mas é. A maioria das oliveiras são da cultivar galega, plantadas pelos nossos avós quando o azeite valia o mesmo que o vinho do Porto. Hoje o lagar do Zé Manel funciona só no fim-de-semana, com a filha a fazer a contabilidade no laptop enquanto o pai regula a máquina com um desvio de canivete. O ouro verde tem gosto de pimenta preta e deixa a garganta arranhada — é esse o sinal que os compradores de Lisboa procuram. Quando o lagar trabalha, cheira-se azeite na aldeira toda: entra pelas janelas, agarra-se às cortinas, fica nos casacos pendurados.
Caminho e alojamento
O Caminho de Fátima passa, mas os peregrinos vão pela estrada municipal porque o trilho fica lodoso depois de três dias de chuva. Param no café para pedir água e ouvem o Zé a dizer que vai por ali abaixo até ao cruzamento, depois é sempre em frente. Há três quartos na casa da D. Amélia — ela serve pequeno-almoço com doce de abóbora feito pela nora e pão de milho que esfarela na toalha. Os albergues municipais ficaram vazios depois de fecharem o restaurante do Sr. Albano; hoje são casas de família com placa pintada à mão que diz "Quartos - perguntar dentro".
Aritmética do quotidiano
O autocarro escolar passa às oito e vazia a aldeia em dez minutos. Depois só se ouvem as máquinas da fábrica de molduras do outro lado da ribeira e o ventilador do café que o Zé nunca desliga porque "gasta menos que o ar condicionado". Às tantas da tarde chega a carrinha da Goucha com pão de leite para a mercearia, a Maria do depósito abre meia hora só para ela. Os velhos jogam sueca sob o plátano, contando as cartas em voz alta porque o Sr. Jaime já não ouve bem. Quando o sol se põe atrás do olival do Crispim, as folhas parecem de alumínio e a terra solta um calor que sobe pelos tornozelos. É então que cheira a lenha de sobreiro queimada na lareira da D. Odete — ela acende sempre às seis, inverno ou verão, porque "a casa precisa de cheira a fim de dia".