Artigo completo sobre Rio de Couros: Onde os Dinossauros Deixaram Marca na Pedra
Freguesia de Ourém guarda pegadas fossilizadas do Jurássico entre olivais centenários do Ribatejo
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A luz da manhã entra oblíqua pelos campos que rodeiam Rio de Couros, desenhando sombras compridas sobre a terra calcária. Aqui, a 124 metros de altitude, o silêncio é pontuado pelo canto distante de um galo e pelo ranger de um portão de madeira que alguém fecha após alimentar as galinhas. Não há pressa. Os gestos repetem-se há gerações, lentos e precisos, como quem conhece o peso exacto de cada balde de água.
Esta pequena freguesia do concelho de Ourém, com pouco mais de mil habitantes distribuídos por 21 quilómetros quadrados, vive num ritmo que a densidade populacional de 52 pessoas por quilómetro quadrado ajuda a explicar. Há espaço entre as casas. Há espaço entre as palavras quando dois vizinhos se cruzam no caminho. E há espaço, sobretudo, para o olhar se perder nos horizontes suaves do Ribatejo, onde a planície começa a ganhar ondulações que anunciam, ao longe, outras geografias.
Sob os pés dos gigantes
O que torna Rio de Couros singular está literalmente gravado na pedra. A freguesia integra o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém/Torres Novas — um sítio que nem todos os habitantes visitaram, mas que todos conhecem como "as pegadas". As marcas deixadas por saurópodes e terópodes no que era então lama de uma praia há 175 milhões de anos transformaram-se em calcário duro. Hoje, quem percebe do assunto aponta para a pedra e diz: "Isto aqui era o que era o estacionamento da praia naquele tempo." É geologia com humor de tasca.
A terra calcária que guarda esses vestígios pré-históricos é a mesma que alimenta os olivais. Rio de Couros pertence à denominação de origem protegida dos Azeites do Ribatejo — o que na prática quer dizer que metade dos quintais tem oliveiras que dão azeite que ninguém compra porque toda a gente faz o seu. Entre Novembro e Janeiro, o cheiro das azeitonas esmagadas impregna o ar. É o perfume que anuncia que é hora de ir ao lagar, onde se encontram os mesmos rostos de todos os anos, todos com a mesha história de que o seu azeite é o melhor.
Pelos caminhos da fé
O Caminho de Fátima atravessa a freguesia, trazendo peregrinos que seguem a pé ou de bicicleta rumo ao santuário. Vêem-se passar ao final da tarde, mochilas às costas, parando junto à fonte para encher garrafas. O Zé do Café, que tem a padaria na esquina, conta que já lhe pediram água em sete línguas diferentes. "Mas todos percebem quando lhes digo que a torneira é ali." Alguns peregrinos dormem no infantário, outros acamparam no terreno da Câmara. Aqui, a hospitalidade não é negócio — é o que se faz quando alguém aparece com os pés em carne viva e pergunta onde pode dormir.
A estrutura demográfica da freguesia reflecte o envelhecimento comum ao interior: 413 pessoas com mais de 65 anos, contra apenas 109 jovens até aos 14. Os únicos três alojamentos locais servem sobretudo famílias que vêm visitar Fátima mas não querem pagar os preços de lá. "É como ir a Lisboa e dormir em Almada," explica a D. Amélia, que tem um T1 arrendado. "São 15 minutos de carro e poupam 40 euros por noite."
O sol desce devagar sobre Rio de Couros, tingindo de laranja os telhados de telha vermelha. Ao longe, uma campainha toca — ninguém sabe ao certo se é da igreja ou das ovelhas do Adérito. O vento traz o cheiro a terra seca e a fumo de lenha. Nas pedras antigas, invisíveis a olho nu mas presentes, as pegadas de criaturas extintas esperam pacientemente que alguém se abaixe para as ler. Mas quem cá vive já nem olha para baixo — olha antes para o horizonte, onde o dia acaba como começou: sem pressa, sem ruído, sem grandes histórias para contar, mas com a certeza de que amanhão haverá outro galo a cantar e outro portão a ranger.