Artigo completo sobre Seiça: onde os dinossauros deixaram rasto no calcário
Freguesia de Ourém com pegadas fossilizadas, olivais centenários e passagem do Caminho de Fátima
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O som das pegadas ressoa num chão que já conheceu passos mais curtos. Em Seiça, o calcário guarda marcas de sáurios que por aqui passaram há 175 milhões de anos, quando isto era margem de laguna. Hoje, a freguesia estende-se por colinas que ninguém chama de montanhas, a 158 metros de altitude, onde o verde dos olivais se parte com o branco da pedra queimada pelo sol.
Sob os pés dos gigantes
O Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios atravessa a freguesia, mas as lajes calcárias estão mais espalhadas do que se pensa. Há marcas tridáctilas que só quem conhece é que aponta - não estão assinaladas nem protegidas, estão ali mesmo, no meio do campo, onde os moleiros trazem os burros a pastar. A pedra guarda o peso daqueles animais como quem guarda memória de um vizido que passou. Não é preciso ser paleontólogo para sentir o arrepio de pisar onde eles pisaram - basta baixar os olhos e acreditar.
Mas Seiça vive do que dá à terra. Os olivais das encostas produzem azeitona que vai para o lagar de Casal da Serra, onde o Zeferino ainda faz o azeite como o pai lhe ensinou. O solo calcário e o clima ameno - nem demasiado seco, nem demasiado húmido - dão ao azeite um sabor que fica na boca dias depois. Entre Novembro e Janeiro, o cheiro a bagaço novo entra pelas janelas das casas como visita antiga.
Caminho e silêncio
Quem vem a pé para Fátima passa por Seiça, mas aqui não há ânsias nem promessas. Há é sede. Os peregrinos param no café do João, bebem uma água, comem um queijo da serra que vem de Fátima mas sabe a Ourém. As sete casas que alugam quartos não têm nome nem estrelas - são casas de morada, onde a D. Rosa ou a D. Alice abrem a porta a quem bate com jeito. O silêncio da noite é o silêncio mesmo: não há cafés, não há música, só o cão do Adelino que ladra quando o vento lhe dá na vontade.
Dos 1879 habitantes, 644 têm mais de 65 anos. Nota-se nas tardes de Domingo, quando os bancos em frente à igreja se enchem de gente que já não vai à missa mas vai ao sol. Os mais novos trabalham em Fátima, em Ourém, em Leiria - voltam ao fim-de-semana, trazem os miúdos, enchem a vila de risos que não são dela.
O que fica na retina
Não há monumentos, não há miradouros. Há é a estrada que sobe para Alburitel, onde se vê o Tejo lá em baixo quando o dia está limpo. Há as oliveiras plantadas por quem já não está, em linhas que seguem a curva da serra. Há a luz que muda ao longo do dia - branca ao meio-dia, dourada quando o sol se põe por trás da Serra de Aire, azulada nas manhãs de Inverno quando a geada branqueia os campos.
Ao crepúsculo, quando as sombras das oliveiras se alongam e o ar arrefece depressa, é possível imaginar - sem querer - as silhuetas enormes que por aqui passaram. O calcário frio sob as mãos, as marcas tridáctilas que parecem feitas ontem, o peso do tempo que não se entende mas se sente. Seiça não pede que se acredite em nada: basta olhar para baixo e ver que o mundo é mais antigo do que os nossos pés.