Artigo completo sobre Asseiceira: onde os pomares ditam o tempo do Ribatejo
Freguesia rural de Rio Maior marcada por olivais, peregrinos e o silêncio dos campos agrícolas
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A luz da manhã bate nos olivais e nos pomares de macieiras e pereiras que se estendem em ondulações suaves, como se alguém tivesse arrumado o terreno com a mão. O silêncio é quase bêbado — só o trator do Zé Manel, lá ao longe, a lembrar que há trabalho que não espera por ninguém. Asseiceira não se anuncia: aparece. Tem 1124 pessoas, o que quer dizer que toda a gente conhece toda a gente e que, se estranhar aqui um carro, alguém vai perguntar "de quem é?" antes de fechar a janela.
O nome vem do latim asecere, "sítio de árvores", coisa que se percebe logo: olhe para um lado e há macieiras; para o outro, oliveiras que já estavam aqui quando o meu avô ainda ia à escola a pé. Desde o século XIII que esta terra aparece nos papéis — primeiro da Ordem de Cristo, depois no arquivo de Rio Maior. Nunca foi grande coisa, foi é resistindo. As casas de xisto não contam histórias de reis, contam anos de colheitas boas e más, de filhos que partiram e de netos que voltaram para plantar o mesmo que o avô.
O caminho que atravessa
O Caminho de Torres passa aqui, mas os peregrinos vêm com pressa. Param na fonte da igreja, enchem a garrafa, tiram uma foto ao plátano e seguem. Não há tascas, nem alojamento local — há o café do César que abre às 7h e fecha quando o último cliente se levanta. Curiosidade: não há festa do santo padroeiro. Em Portugal, onde até o cão do vizinho tem dia próprio, Asseiceira é um caso — celebra-se o que a terra der. E dá muita coisa.
Sal, maçã e pêra: o que a terra dá
A comida não é inventada: é o que se colhe. A Maçã de Alcobaça e a Pêra Rocha crescem mesmo ali ao lado da estrada — se for em Outubro, pare o carro e compre ao rapaz da banca. São as mesmas que a minha mãe descasca à mesa, sem meias-medidas: "Come, que isto não é bombom". O sal vem das salinas de Rio Maior, a dez minutos: é sal de verdade, aquele que faz estalar a língua. Junte um naco de pão, azeite da casa e um copo de vinho do Tejo — não precisa de mais nada. Se quiser provar, vá a casa da D. Lurdes: ela deixa, mas telefone primeiro, senão está no campo.
Entre o planalto e a serra
Asseiceira fica num patamar a 115 metros, como quem está no meio do escadário — olha para o Ribatejo de um lado, para as Serras de Aire e Candeeiros do outro. O Parque Natural fica ali ao lado, mas não precisa de bota de montanha: é só seguir o caminho de terra abaixo, passar o porteiro das vacas (sim, elas estão no meio do caminho) e chega-se a uma gruta onde o silêncio é tão grande que se ouve o coração. Leve água. E leve o lixo de volta, que aqui ainda não há recolha porta-a-porta.
Caminhar por Asseiceira é sujar os sapatos de pó, trocar dois dedos de conversa com quem está a podar e levar uma maçã oferecida. É perceber que o tempo não é medido em likes, mas em oliveiras que demoram trinta anos a dar azeite. Quando a tarde cai e a luz se põe nos pomares, fica o cheiro a terra quente e a promessa de que amanhã, se Deus quiser, há outro dia igual. E isso, meu amigo, é um luxo que não está em catálogo.