Artigo completo sobre União das freguesias de Azambujeira e Malaqueijo
Duas freguesias de Rio Maior unidas pela oliveira, pelourinhos manuelinos e tradições de lagar
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O cheiro a azeite novo sobe da pedra do lagar. As mãos empurram a massa escura de azeitona esmagada, o sumo verde-dourado escorre pelo sulco cavado no granito, recolhe-se na talha de barro. É outubro em Azambujeira e o "pisaço" reúne vizinhos como sempre reuniu — sopa de cebola fumegante na panela de ferro, chouriço a estalar na brasa, garrafões de tinto pousados na sombra do alpendre. A luz rasante bate nas oliveiras centenárias do olival, troncos retorcidos que ainda dão fruto. Aqui não há Cobrançosa plantada há século e meio — essa variedade chegou mais tarde, trazida de Trás-os-Montes nos anos 1950.
Pedra que testemunha
O Pelourinho de Azambujeira ergue-se num pequeno adro, lioz branco com capitéis manuelinos, símbolo da autonomia concedida por D. Manuel I em 1514. Ao entardecer, quando o sol desce sobre o vale do Tejo, a pedra adquire tons dourados, quase alaranjados. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição fica ao lado, talha barroca no interior, retábulo joanino com volutas douradas e anjos rechonchudos. Em Malaqueijo, a Igreja de São Bartolomeu exibe frontão curvo setecentista e campanário que se vê de longe, torre branca contra o céu azul. Entre as duas povoações, casais de taipa e pedra, platibandas de tijoleira, portões de madeira gretada pelo tempo. Alguns lagares de azeite em pedra ainda resistem nos quintais, abandonados mas inteiros, rodas de moer caladas há décadas.
O sabor do montado
O cabrito assado à moda de Rio Maior chega à mesa em tabuleiro de barro, pele estaladiça, carne macia temperada com alho e banha. O ensopado de borrego traz ervilhas e hortelã fresca, o arroz de cabidela de galinha tem aquele tom escuro, vísceras e sangue cozinhados devagar. Os petiscos incluem torresmos de tojo — pele de porco frita até ficar transparente —, chouriço de vinho cortado grosso, queijo fresco de ovelha coberto de mel de rosmaninho. Nos dias de festa, a sopa de tomate e pão alentejano, temperada com manjericão e azeite novo do olival, serve-se quente em tigelas fundas. Entre os doces, os "bolinhos de noiva" de Azambujeira misturam amêndoa, gila e canela; os "foguetes" de Malaqueijo são rolos de massa frita recheados com doce de ovos. O vinho branco da região do Tejo acompanha bogas e barbos pescados no ribeiro; o tinto envelhecido em barrica harmoniza com perdiz ou javali.
Entre serra e ribeiro
A borda sul do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros desenha a paisagem. Relevos calcários ondulam entre 80 e 200 metros, cobertos de montado de sobro e azinho, carvalhais baixos pontuados por medronheiros e urzes. O ribeiro de Malaqueijo nasce nas encostas, água fria que corre entre freixos, alimenta poços e lagoas temporárias onde garças e melros-d'-água nidificam. O Percurso dos Moinhos liga as duas povoações, três quilómetros entre olivais, pastagens floridas na primavera, antigas pedreiras de calcário abandonadas. Vistas amplas sobre o vale do Tejo, silêncio denso apenas quebrado pelo canto de grifos que planam alto.
Memória viva
Padre Joaquim de Azambujeira construiu escolas e capelas no Kongo entre 1880 e 1920. Maria da Conceição Silva, primeira mulher eleita para a Junta de Freguesia em 1977, trouxe água canalizada e creche. Joaquim Malaqueijo percorreu feiras do Ribatejo com viola toada, improvisações que o Museu de Etnologia recolheu. A antiga estrada de calçada que ligava Malaqueijo às Salinas de Rio Maior, hoje quase desaparecida, era trilhada por mulheres com sacos de sal sobre a cabeça — "Moça de Malaqueijo, vai-te o sal escorregando", dizia o verso popular.
Ao fim da tarde, no Café Central, em frente ao campo de futebol onde a UDM renasceu em 2022, o pastel de nata chega morno com o café. Pela janela vê-se a estrada que sobe entre oliveiras centenárias, troncos de prata contra o céu que escurece. O sumo verde-dourado ainda escorre no lagar, mãos que empurram a massa, cheiro a azeite novo que fica na roupa, na pele, na memória.