Artigo completo sobre Arneiro das Milhariças: fumeiro, olivais e calcário
Entre o Azeite do Ribatejo DOP e as Serras de Aire e Candeeiros, vida rural em Santarém
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O cheiro a chouriça no fumeiro não é o das brochuras - é o do fumeiro da Dona Alice, o mesmo que antigamente fumava o toucinho do meu avô. Quando a madrugada ainda paira sobre os campos, mistura-se com o aroma da terra molhada mas também com o do estrume que o Adolfo já está a espalhar na horta dele, a de trás do cemitério. Arneiro das Milhariças acorda devagar, ao ritmo das gaitas do café que o Quim abre às sete em ponto, mesmo no inverno quando só os camionistas da ração passam por aqui.
A freguesia estende-se por doze quilómetros quadrados onde os 738 habitantes - mas já foram mais, ó senhor, muitos mais - mantêm uma relação directa com a terra. Os olivais produzem azeitona para o Azeite do Ribatejo DOP, mas o azeite bom é o que o Sr. Alfredo faz na sua lagarada, aquele que deixa a garganta a coçar se beberes um copito ao pequeno-almoço. Os pomares de pereiras guardam a Pêra Rocha do Oeste, mas as melhores são as da estrada da Feteira, aquelas que o Horácio colhe ainda verdes para aguentarem até ao Natal. Nos pastos mais afastados, o gado de raça autóctone pasta devagar - é a Carnalentejana DOP, mas nós chamamos-lhe vaca da raça, e quando o Zé Manel mata um novilho no outono, é todo o lugarejo que cheira a sangue e a matança.
Calcário e Caminho
A norte, o território toca as bordas do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. A paisagem muda: o verde dos campos dá lugar ao cinzento esbranquiçado do calcário jurássico, recortado por grutas e algares onde os miúdos da minha geração iam apanhar morcegos. O Monumento Natural da Pedra da Mua ergue-se como sentinela geológica, lembrando que esta planície já foi fundo de mar há milhões de anos - e ainda hoje se encontram conchas fossilizadas nos muros de pedra seca que marcam as propriedades.
Arneiro das Milhariças insere-se em dois percursos de peregrinação: o Caminho Interior da Via Lusitana e o Caminho de Fátima. Os peregrinos atravessam a freguesia a pé, com as mochilas às costas e os bordões a bater na calçada irregular. Param no café do Quim para um galão - que ele faz com leite da Quinta do Ribeiro, não é daqueles de pacote - e uma torrada com manteiga da serra. Trocam algumas palavras sobre o estado dos pés, perguntam se ainda falta muito para Golegã, seguem caminho. Deixam no ar uma sensação de passagem, mas também umas moedas no balcão e umas histórias que o Quim depois conta aos clientes.
Território Envelhecido
Os números dos Censos de 2021 contam uma história que a gente já vivia: 252 idosos para apenas 78 jovens. A escola primária fechou há dez anos - agora é centro de dia, onde a dona Lurdes vai fazer crochet com as amigas. A densidade populacional de 61 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em casas fechadas, mas não são tantas quanto isso: há sempre um filho ou um neto que vem aos fins de semana, há sempre uma luz acesa ao fundo da aldeia. Nas que resistem, a vida mantém-se teimosa: fumeiros com enchidos a curar - o pai-do-quinho faz o melhor chouriço de vinho da redondeza - galinheiros ao fundo do quintal, cães que latem ao primeiro ruído estranho mas que depois rolam de barriga para o ar para quem cá nasceu.
A oferta de alojamento é modesta mas funcional - seis unidades entre hostels, moradias e quartos. A Tia Guida tem dois quartos há vinte anos, aqueles com os lençóis de linho que cheiram a sabão caseiro. Não há multidões nem filas - há antes o Sr. Joaquim que vai buscar os hóspedes à estação se precisarem, há a boleia para o café onde se servem pastéis de nata ainda quentes da padaria do Vale.
Sabor e Paisagem
A gastronomia ancora-se nos produtos da terra: azeite virgem extra que o vizinho traz num garrafão de cinco litros, carne de vaca que ainda se vai buscar ao talho do Sr. António - que sabe de cor qual é a vaca e quando foi abatida - pêra rocha que se come com a casca, porque é assim que se prova o sabor a noz. Nos tascas e restaurantes locais - há dois, o do Quim e o da D. Rosa, este último só abre para encomendas - os pratos chegam à mesa sem floreados: açorda de bacalhau com coentros do quintal, ensopado de borrego que coze no fogão de lenha desde as sete da manhã, pêra assada no forno com canela da casa do Sr. Adelino que tem a árvore no jardim.
O sol poente incendeia os campos de trigo ceifado no Verão - mas também os campos de papoilas que o Henrique deixou crescer porque diz que fazem bem ao solo. Ao longe, o perfil irregular das serras recorta-se contra o céu alaranjado. O vento traz o cheiro a palha seca e a resina dos pinheiros dispersos, mas também o das eucaliptos que o pessoal plantou há uns anos e agora já ninguém sabe bem a quem pertencem. Arneiro das Milhariças não promete espectáculo - oferece apenas a textura áspera do quotidiano rural, o peso da pedra calcária que dói nos braços quando se vai buscar lenha, o sabor concentrado de um território que resiste porque ninguém se lembrou de o mandar abaixo.