Artigo completo sobre União das Freguesias de Casais e Alviobeira, Tomar
Território de olivais, vinhas e memória da Ordem de Cristo entre as colinas do vale do Nabão
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O cheiro a lenha sobe das chaminés que ainda resistem — e são muitas —, misturado com o cheiro da terra que acabou de ser revolvida. Ao fundo, o Nabão corta o vale como quem abre uma cereja ao meio, e os sinos da igreja dão as doze sem pedir licença. São Casais e Alviobeira, duas freguesias que se juntaram em 2013 por razões de contabilidade municipal e hoje partilham o mesmo presidente, o mesmo orçamento apertado e o mesmo problema: sobram terras, faltam gente. Dois mil quinhentos e vinte e oito almas, dizem os papéis, mas quem cá anda sabe que muitas só vêm aos fins-de-semana ou às missas de dia de defunto.
A terra sobra-lhes para três mil e quinhentos hectares, o que dá setenta vizinhos por quilómetro quadrado — um espaço tão largo que dá para sentir a solidão. A altitude (185 m) é suficiente para o ar ter um fresquito de manhã, mesmo em Agosto, e para as azeitonas darem um azeite que faz espumar os oleiros de Tomar. Vinha também há, mas já não é como antigamente: restam umas vinhas enfiadas nos socalcos que sobrevivem porque alguém se lembrou de fazer vinho para vender aos amigos. A Pêra Rocha é outra história: cresce bem aqui, sim, mas quem ainda tem pomar conta pelos dedos os anos em que o preço paga o trabalho.
Caminhar por estes lados é ir encontrando casas de pedra que resistem mais por teimosia que por manutenção. Há largos onde o coreto está sem banda há duas décadas e bancos de jardim que só servem para os velhos irem morrendo com a paisagem — e são setecentos e oitenta e três, os velhos, contra uma meia-dúzia de miúdos que o autocarro vai buscar às sete e meia para a escola em Tomar. As capelas estão abertas, mas é raro haver missa; quando há, o padre vem de carro e leva os elementos na mala do porta-bagagens.
Três caminhos de peregrinos cruzam a paróquia: o Central, o Interior e o de Fátima. Marcam-no com fitas e setas que os habitantes pintam nos muros para garantir que ninguém se perde nos caminhos de terra que viram lama no Inverno. Os peregrinos param pouco: tiram uma foto ao painel de São Cristóvão, bebem água na fonte e seguem, tal como os turistas que vêm ver o Convento de Cristo a cinco quilómetros. Fica-lhes o barulho das botas e umas moedas no café, que é também mercearia e gabinete de apostas.
Para quem quiser ficar mais do que o tempo de uma fotografia, há doze casas para alugar — umas são apartamentos com piscina que ninguém uso, outras são casas antigas com o tecto de madeira e a televisão por cabo. O melhor que têm é o silêncio: não é aquele silêncio de igreja, é o silêncio que tem o ranger de uma porta ao vento, o latido de um cão a três quintais, o tractor que se oure a subir a serra às seis da manhã. À noite, o céu é tão limpo que se veem os satélites a passar — e é nessa hora que se percebe que a solidão, aqui, não é ausência: é só espaço entre nós e as estrelas.