Artigo completo sobre Madalena e Beselga: Três Caminhos de Peregrinação
Entre olivais e memória, duas freguesias unidas pelos passos dos peregrinos rumo a Santiago e Fátima
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O granito queima sob o sol da tarde, e o silêncio só é quebrado pelo sino da Madalena que dobra às sete — se o vento estiver na direção certa, ouve-se até Beselga. Entre olivais que o senhor António ainda poda à mão e vinhas que a D. Rosa não deixou morrer, o chão desce em bancos de xisto até às ribeiras que só têm nome de quem aqui nasceu. As casas não são "caiadas de branco" — são caiadas com cal viva que se descasca em lascas, deixando ver o tijolo antigo por baixo. O pó não se levanta a cada passo: só quando passa a carrinha do pão ou o tractor do Joaquim que ainda vai ao campo aos sábados.
Onde os peregrinos fazem pausa — e pedem água
Madalena e Beselga juntaram-se em 2013 porque o governo mandou, mas quem aqui vive continua a dizer "vou à Madalena" ou "venho da Beselga" como se a fusão não tivesse acontecido. O nome Madalena vem da igreja que fica no alto — não é grande coisa, mas tem uma campaínha que se ouve a três quilómetros. Beselga é mais complicado: os mais velhos dizem que vem de "basílica", mas ninguém sabe onde é que ela terá ficado.
O que é certo é que os peregrinos passam aqui desde sempre. O Caminho de Santiago marca mesmo na estrada com as setas amarelas que o Zé Pintor vai retocando de dois em dois anos. Os de Fátima são mais discretos — param na fonte da Beselga, enchem a garrafa, perguntam se falta muito para Alviobeira. Ninguém lhes fala em rotas ou percursos. Diz-se apenas: "vai sempre à direita, até encontrar o cruzeiro partido".
Memória guardada no Caniçal — e nas cozinhas
O Museu do Caniçal é a antiga escola primária onde a minha mãe aprendeu a ler. Lá dentro tem uma máquina de fazer azeite que o meu avô usava até 1983 — ainda cheira a azeite ranco e a ferro. A igreja da Madalena tem um quadro de 1750 que ninguém repara, mas tem também um banco onde o padre António dormia a sesta depois da missa das sete.
Não são monumentos que importam. Importa é o muro da casa da Dona Albertina que ainda tem o buraco onde se metiam as galinhas para não irem para a estrada. Importa é o poço da Rua da Igreja que tem "1924" marcado na pedra — e que seca todos os Verões, sem falhar.
Azeite que pica, pêra que se parte, vinho que não engana
O azeite daqui não é "DOP" para quem o faz — é azeite que pica na garganta quando vai fresco, e que a vizinha Maria vende em garrafões de cinco litros a quem sabe bater à porta. A pêra Rocha não é do Oeste: é daqui, da terrinha do senhor Mário, que tem um pomar com três pés que a filha não quer. O vinho do Tejo bebe-se em copos pequenos, à mesa da tasca do Figueira, que só abre quando ele tem vontade — normalmente às sextas, se a mulhor não está zangada. O cabrito vai ao forno de lenha da D. Alda no dia de São João, e os doces conventuais são os trouxas-de-ovos da avó, que ninguém sabe fazer como ela porque "vai no olho".
Entre ribeiras e trilhos — e enguias
A altitude é o que é: se fores da Madalena para a Beselga de bicicleta, vais suar. A ribeira da Bexiga tem enguias que o meu primo ainda pesca de cana, e a de Alviobeira seca tanto no Verão que dá para passar a pé sem molhar os sapatos. A serra de Tomar vê-se lá ao fundo, mas quem vai à fonte do Pimpão já tem pernas que doem. Os trilhos são os mesmos de sempre: o que vai ao pomar do senhor Jaime, o que desce à vinha da Cascalheira, o que passa no cemitério onde a minha avó está enterrada com o nome mal escrito na campa.
O peso do silêncio — e do barulho
Quando as luzes se acendem, ouve-se mesmo é o cão do Toninho que ladra às corujas. Se for noite de sexta, há música no café do Figueira — aquela máquina de música antiga que só tem discos do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira. O cheiro não é "terra molhada e oliveira": é fumo de lareira que queima pinho verde, é o perfume da roupa que a vizinha estendeu à noite, é o cheiro a porco que se começa a sentir em Novembro quando começa a matança. E quando o vento vem do norte, traz o cheiro a café torrado da fábrica de Tomar — esse sim, um cheiro que não existe em lado nenhum.