Artigo completo sobre Sabacheira: Olivais Antigos e Caminhos de Peregrinação
Sabacheira, em Tomar, Santarém, une tradição oleícola DOP a três rotas de peregrinação. Terra de olivais centenários, vestígios romanos e ruralidade autênt
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O som da bota sobre a terra batida. À volta, os olivais parecem filas de velhos que se conhecem há séculos, os troncos retorcidos como quem tem histórias para contar. O sol da tarde aquece o xisto e o ar traz aquele cheiro a terra seca e a folha de oliveira esmagada — quem já passou por aqui sabe do que falo. Sabacheira não aparece de repente; vai-se descobrindo em quintais murados, eiras vazias, caminhos que se bifurcam entre vinhas e montado. A 174 metros de altitude, o Ribatejo rural respira devagar, longe da confusão que enche Tomar a poucos quilómetros.
Terra de passagem, terra de ficar
Três rotas de peregrinação cruzam a freguesia: o Caminho Central Português de Santiago, a Via Lusitana e o Caminho de Fátima. Os peregrinos aparecem com os bordões a bater no alcatrão, mochilas às costas, cara de quem ainda tem muito para andar. Mas Sabacheira nunca foi só passagem. Há quem diga que se anda por cá desde o Paleolítico — e os romanos também por cá andaram, deixando pedras e potes partidos que o arado ainda vai encontrando. Na Idade Média, a Ordem de Cristo estendeu a mão até aqui. O nome? Dizem que vem do latim Sabacium, mas o que importa é que a terra continua a fazer o que sempre fez: dar fruto.
Olivais que falam por si
O azeite é o que se fala por cá. O Azeite do Ribatejo DOP nasce nestes olivais que cobrem a maior parte dos 34 km² da freguesia. No final do outono, as redes estendem-se sob as árvores e o cheiro a azeitona madura impregna tudo. Há também Pêra Rocha, mas é o olival que manda. Na mesa, cabrito assado, ensopados de borrego, sopa de tomate onde o azeite flutua em círculos dourados — a cozinha é de quem trabalha a terra e tem de aproveitar tudo. A região vinícola do Tejo completa o quadro: vinhas que amadurecem ao sol, garrafas que guardam o sabor desta terra calcária.
O silêncio que é festa
Cá não há festas religiosas marcadas — o que é meio estranho para estas bandas, onde cada aldeia tem o seu santo e os seus foguetes. Aqui, o calendário marca-se pela colheita, pela vindima, pela passagem dos peregrinos. Dos 844 habitantes, 338 têm mais de 65 anos e só 62 ainda não fizeram 15. São 24 pessoas por km², o que quer dizer espaço, silêncio e horizontes que não acabam.
Caminhar entre Tomar e o montado
Os trilhos convidam a ir devagar. Pode-se seguir a pé até à Mata dos Sete Montes, perder-se nos olivais quando o sol está oblíquo ou provar azeite acabado de fazer numa das quintas. Não há cachoeiras nem penhascos — há antes colinas suaves, ribeiras estreitas, muros de pedra seca e portões de madeira que rangem. O Convento de Cristo fica ali ao lado, mas aqui a monumentalidade é outra: é o cão a ladrar ao longe, é a porta aberta de um quintal, é o vento nas folhas das oliveiras.
Ao fim da tarde, quando a lhoa doura os troncos e as sombras se alongam, Sabacheira guarda o seu segredo: o som do vento nas folhas prateadas, constante como quem respira fundo.