Artigo completo sobre Tomar: a cidade templária que o Nabão atravessa
Do Convento de Cristo ao Mouchão, a história dos Templários escrita em pedra ao longo do Nabão
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O rio Nabão corre lento sob a Ponte Velha, e o som da água a embater nos moinhos do Mouchão chega abafado pela bruma da manhã. Há um cheiro húmido de musgo e lodo fluvial que sobe das margens, misturado com o aroma adocicado que escapa de alguma pastelaria já aberta na rua direita. A luz rasante do sol ainda não tocou a Charola lá em cima, no alto do monte, mas já ilumina a copa dos plátanos na ilha fluvial, tingindo-os de um dourado espesso. Tomar acorda assim — de baixo para cima, do rio para o castelo, como se a água precedesse sempre a pedra.
A cidade que os Templários desenharam
Antes dos cavaleiros, houve Roma. O povoado de Sellium ocupava a margem esquerda do Nabão, aproveitando a confluência de águas que deu ao lugar o seu nome provável — Tumarum, do latim, um sítio definido pela corrente. Mas foi em 1159, doze anos depois da conquista aos mouros, que o território mudou de natureza: doado aos Templários, transformou-se em sede de uma ordem militar cuja ambição se inscreveu na paisagem com argamassa e cantaria. D. Gualdim Pais, mestre da Ordem, concedeu foral em 1162 e ergueu o castelo e o Convento de Cristo — uma cidadela que não se limitava a defender, mas que pretendia impressionar. A Charola, a única igreja circular templária europeia em pedra totalmente conservada, é disso testemunho: entrar naquele espaço octogonal, com a luz filtrada pelas frestas a desenhar geometrias no chão de laje, é sentir o peso de uma teologia que se fez arquitectura. Séculos depois, D. Manuel I mandou reconstruir a Igreja de São João Baptista e concedeu novo foral à vila em 1510. O Infante D. Henrique, como administrador do mestrado da Ordem de Cristo — herdeira dos Templários —, fez de Tomar um centro de poder que irradiava para os oceanos. Fernão de Magalhães terá passado por aqui para tratar de assuntos ligados à Ordem antes de partir para a viagem que circum-navegaria o globo.
Vinte e seis monumentos numa só freguesia
A densidade patrimonial é esmagadora: vinte e seis monumentos classificados, onze dos quais monumentos nacionais, comprimidos numa área de pouco mais de trinta quilómetros quadrados. O Convento de Cristo, Património Mundial da UNESCO, domina tudo — a Janela do Capítulo, obra-prima do manuelino, parece uma explosão vegetal petrificada, com cordas, correntes, algas e raízes a brotar da pedra calcária como se o mar tivesse subido até ao monte. Mas há um Tomar menos monumental e igualmente denso. Na Igreja de Santa Maria dos Olivais, monumento nacional de nave sóbria e portal ogival, repousam os primeiros mestres da Ordem dos Templários — o silêncio ali dentro tem uma gravidade diferente, como se o ar fosse mais pesado. No centro, a Sinagoga do século XV — a única sinagoga medieval portuguesa intacta, hoje Museu Luso-Hebraico — conserva quatro colunas e abóbadas de aresta num espaço exíguo onde a acústica amplifica cada murmúrio. A Igreja da Misericórdia, de 1567, e a Igreja da Conceição, de 1571, alinham-se com capelas renascentistas como as de São Lourenço e São Gregório, compondo um roteiro que exige dias, não horas.
Trezentos e sessenta e cinco degraus até ao crepúsculo
Há uma experiência que exige pernas e recompensa com luz. O escadório da Capela da Senhora da Piedade soma exactamente trezentos e sessenta e cinco degraus — um por cada dia do ano — e a subida ao entardecer transforma o esforço numa meditação involuntária. A cada patamar, a cidade encolhe; o Nabão torna-se um traço prateado entre telhados cor de ferrugem. No topo, o vento sopra com uma frescura que contrasta com o calor acumulado na pedra dos degraus, ainda tépida sob os pés. Quem desce e cruza a Praça da República encontra a fachada gótica manuelina da Igreja de São João Baptista a receber os últimos raios — a cantaria ganha um tom quase rosado que dura minutos.
Do rio à mesa
O Mouchão, ilha fluvial artificializada desde a Idade Média para aproveitamento hidráulico, mantém moinhos de água em funcionamento. Caminhar ali é ouvir o ranger das rodas de madeira, o chapinhar dos patos, o farfalhar dos choupos. É um intervalo vegetal no meio da pedra urbana, e liga-se ao centro histórico pelo trilho ribeirinho do Nabão — a Pequena Rota que acompanha levadas e canais até zonas onde a cidade se dissolve em hortas. A mesa tomarense reflecte esta proximidade entre rio e campo: a sopa da panela de Tomar, o ensopado de borrego, o bacalhau assado à lagareiro. Mas são os doces conventuais que definem a identidade — os célebres fatias de Tomar (porque nenhum tomarense chama "fatos" a isto), massa folhada recheada com doce de ovos, os pastéis de Santa Iria, o pão de rala. A região vinícola do Tejo fornece brancos e tintos que acompanham sem competir, e os azeites do Ribatejo DOP e a Pêra Rocha do Oeste DOP completam um repertório de sabores com denominação protegida. Tomar é, também, encruzilhada de peregrinos: por aqui passam o Caminho Central Português, o Caminho Interior pela Via Lusitana e o Caminho de Fátima, trazendo à cidade um fluxo constante de caminhantes com mochilas e conchas ao peito — e que acabam sempre no mesmo café da Praça a recuperar forças com um meio de leite e um pastel de nata.
A procissão e a feira
O calendário ritual marca o pulso da cidade. Na Semana Santa, a procissão do Senhor dos Passos percorre ruas estreitas onde o incenso se mistura com o cheiro a cera derretida. A vinte e quatro de Junho, a festa de São João Baptista junta missa solene, procissão e arraial — e se fores ao arraial, prova os caracóis na tasquinha do Clube 13, que são os melhores da cidade. Em Outubro, a Feira de Santa Iria — de origem medieval — ocupa a cidade com comércio, artesanato e espectáculos, devolvendo a Tomar uma vocação de mercado que atravessa séculos. É a altura em que os tomarenses que emigraram voltam a casa, e as esplanadas ficam cheias de gente a falar francês e suíço-alemão.
A noite desce sobre o Nabão e os moinhos do Mouchão continuam o seu trabalho lento, ritmado pela água que não pára. Algures na margem, o reflexo da iluminação do Convento de Cristo tremula na corrente — uma mancha dourada e instável, como se a pedra templária, lá em cima, se liquefizesse e descesse finalmente ao rio de onde tudo partiu.