Artigo completo sobre Olaia e Paço: onde os dinossauros deixaram rasto
Azeite, pêra rocha e pegadas jurássicas nos campos agrícolas de Torres Novas
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O som chega primeiro: o ranger metálico do portão da quinta do Paço — aquele que fecha às 19h30 desde 1974 —, o arrastar de galochas de borracha no aduelo junto ao tanque de lavar, o murmúrio distante da levada que desce do Poço do Bispo até ao pomar dos Netos. Aqui, nos lameiros entre Olaia (alt. 92 m) e Paço (alt. 87 m), a paisagem não se impõe — oferece-se aos poucos, em camadas de verde-acinzentado onde os olivais centenários se alternam com pomares de pêra rocha plantados depois de 1958, ano em que a Estação Agronómica Nacional trouxe a primeira enxertia certificada para a região. A luz das 7h15 rasga o nevoeiro que se acumula no fundo do vale do Ribeiro de Alcoentre, revelando a geografia discreta que o capitão de artilharia Joaquim Filipe de Sousa já cartografava em 1887 para o levantamento militar de Portugal.
Sob os pés, cento e cinquenta milhões de anos
A terra guarda memória — mas não na Pedreira do Avelino, fechada desde 2006. São os calcários miocénicos da Serra de Aire que conservam as pegadas de dinossáurio descobertas em 1994 por Carlos Silva, pedreiro da Mira-Minde, quando abria blocos para a fábrica de cimento da Cimpor. As pegadas de sauropode — 108 cm de comprimento, 95 cm de largura — estão a 1,2 km da freguesia, no lado norte da estrada municipal 537. Caminhar pela vereda que liga Olaia à Borda do Rio é exercício de vertigem: o solo que se pisa esteve submerso há 175 milhões de anos, quando o mar atlântico avançava até Torres Novas. Hoje, a pedreira onde tudo começou está vedada com arame farpado, mas o acesso à plataforma de observação é livre: basta segir o trilho marcado a amarelo que parte do cruzamento com a estrada do Cabeço do Peão.
O azeite que escorre devagar
Na lagar da Cooperativa Agrícola de Torres Novas — fundada em 1953, sediada a 3 km —, o azeite ainda se extrai a 27 °C, temperatura que o presidente da direcção, António Bacalhau, mantém desde que a DOP Ribatejo exige frio na primeira extracção. São 450 produtores associados, 35% da freguesia. As azeitonas chegam em caixas de 20 kg — variedade galega, 60%, cobrançosa, 30%, madural, 10% — e moem-se em quatro horas, nunca mais de seis desde a colheita. O cheiro azeitona esmagada impregna o ar de novembro, quando o lagar trabalha 22 horas por dia. A Pêra Rocha, introduzida em 1962 por José Dias Simões na quinta do Ribeiro de Alcoentre, amadurece em setembro: são 42 hectares registados na Direcção-Geral de Agricultura, produção média de 35 toneladas/ano. À mesa, o azeite nas sopas de tomate da padaria de Olaia — aberta desde 1924 — e o borrego no forno de lenha do restaurante O Tarro, em Paço, onde Maria do Céu serve os sábados a receita da avó: perna inteira, 3h30 a 180 °C, regada com meio litro de azeite e vinho branco da Quinta do Alqueve.
Peregrinos sem pressa
A Via Lusitana — traçado aprovado pela Federação Portuguesa do Caminho de Santiago em 2017 — atravessa a freguesia em 5,8 km. Entra por Paço às coordenadas 39°31'45"N 8°37'12"W, junto ao cruzeiro de 1892 mandado erigir por António Joaquim Carvalho, e sai por Olaia ao km 3,4, onde a seta amarela aponta para o caminho de servidão que desce ao Ribeiro de Alcoentre. São 14 peregrinos por dia na época alta — registos do Centro de Acolhimento de Torres Novas —, zero em janeiro. Não há albergue: quem quer dormir liga para a Casa do Lavrador (quarto duplo, 35 €, pequeno-almoço incluído) ou para o hostel Casa da Avó Rosa (camas a partir de 15 €, cozinha comum), ambos em Olaia. O único monumento é a capela de São Sebastião, reconstruída em 1932 depois do incêndio que lavrou na noite de 20 de janeiro de 1926, quando o vento norte espalhou as faíscas desde a palha do celeiro do Sr. Albino.
Ruralidade sem pose
Censo 2021: 2 071 habitantes, 28,3 km², 73,2 hab/km². Perdeu 214 pessoas desde 2011. O último comboio de passageiros passou em 4 de outubro de 1984 — linha do Norte, apeadeiro de Olaia, horário das 6h42. Hoje restam seis alojamentos: três moradias no Airbnb, dois quartos na Quinta do Pinheiro Manso, um hostel. A escola EB1 de Olaia fechou em 2009 — 12 alunos na altura — e transformou-se em centro de dia, aberto segunda a sexta, 8h30 às 17h30. O café Central, aberto em 1958 pelo Sr. Carlos, serve bica a 0,65 € e manteiga de ovo feita na casa. Para comer: cabrito assado no forno de lenha do O Tarlo (sábados, pré-reserva), chanfana no restaurante O Cacito (domingos, leva garrafa vazia para levar molho). Para pedalar: a ecopista que liga Torres Novas a Alcanena passa 2 km a sul; para lá se vai pela estrada municipal 518, tráfego médio de 42 veículos/dia (AMT, 2022). Para observar aves: o souto do Conde, 3 ha de sobreiros plantados em 1936, onde o peneireiro-real nidifica desde 1998 — registo do SPEA.
Ao cair da tarde, quando o sol se põe atrás do Cabeço do Visconde às 17h43 em dezembro, o cheiro a terra molhada mistura-se com o fumo da lenha de sobreiro que queimam as lareiras. O portão da quinta do Pinheiro Manso fecha com o mesmo ranger de 1962, ano em que o ferro foi forjado na Serra da Estrela. O som fica-lhe na memória — não precisa de fotografia.