Artigo completo sobre Zibreira: nascente do Almonda e a fonte milagrosa
Entre olivais centenários e a água santa de S. Sebastião, a freguesia guarda tradições ribatejanas
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A água da fonte escorre pela pedra com o mesmo murmúrio de sempre — aquele som que faz os peregrinos cerrar os olhos e fingir que o tempo não passou. No terceiro domingo de janeiro, quando o nevoeiro sobe do Almonda como leite a ferver, ainda se formam filas para encher garrafas Pet com a “água santa”. Dizem que curava sarna, ressaca e desgosto; hoje cura sobretudo a sede de quem vem de fora e precisa de uma desculpa para cá subir. A pedra está tão polida que serve de espelho aos pés dos devotos — e, confesse-se, também aos dos turistas que descobriram a romaria no Instagram.
Onde o Almonda nasce entre olivais
O rio nasce aqui, mas não faça ilusões: não é espetáculo de Natureza. É um furo na terra, entre dois muros de pedra seca, que se decide a ser ribeiro. A nascente alimenta o vale todo, sim, mas o mais impressionante é como os antigos lagares de azeite ainda aguentam porcos-espinhos e telhas soltas. O moinho recuperado range como uma cama de hotel barato — madeira a bater em pedra, rodagem que parece pedir reforma. Mas funciona. E quando o melro se atreve a cantar por cima do ranger, até parece que o séc. XIX nunca terminou.
Olivais? São eles os donos do sítio. Troncos que parecem braços a tentar apanhar a própria sombra, casca branca como creme de gesso. Entre eles, azeite DOP que custa o mesmo que um jantar em Lisboa — e que, lá está, vale o que vale: pão quente, azeite a escorrer, sal grosso. Não é preciso mais, mas ninguém se farta de pedir mais.
S. Sebastião e a água que cura
A igreja matriz está onde sempre esteve: no cimo da ladeira, a competir com o café “O Almendra” pela atenção do freguês. O retábulo dourado cintila como montra de ourivesaria quando o sol entra pelas 4 da tarde — e aí percebe-se porque é que as velhas ainda se sentam no banco da frente: é o único sítio que aquece sem lareira. A lenda diz que a imagem de S. Sebastião apareceu flutuando na fonte; o que é certo é que desde então ninguém ousou mudar a data da romaria. A procissão sobe a estrada Nacional, o padre vai de botas de borracha sob a batina — lama é que não perdoa. Depois vem a bênção da água: o silêncio dura o tempo de três Ave-Marias e de um tique-taque de máquina fotográfica alemã.
À mesa, o Ribatejo que ainda não emagreceu
Na “Tasquinha da Zé,” o ensopado de borrego só é servido de sexta — chega cedo, leve fome e não peça conta detalhada. O cabrito vai às voltas no forno de lenha desde as sete da manhā; às duas está na mesa, pele estaladiça que faz mossa no lábio, mas ninguém se queixa. Migas: se for primavera, espargos bravos que a mulher do João foi apanhar de xato; se for verão, tomate que desce pela garganta como gelo. A sopa de beldroegas parece pintura do Dalí — verde vivo, ovo escalfado à deriva — mas aquece mais que xaile de avó. No fim, doce de figo em barra, queijo de cabra que sai gelado da arca, e aguardente que se ainda arde é porque é boa. Se não arder, é água da torneira — mande de volta.
Trilho de peregrinos e dinossáurios
Zibreira é ponto de passagem na Via Lusitana — ou, como lhe chamam os locais, “o sítio onde os alemães param a pedir água.” Os peregrinos chegam com a carinha lavada de esperança e saem com as meias a cheirar a vinagre. Quatro quilómetros para sul, as pegadas de dinossáurios lembram que aqui já se banhavos bichos de 30 toneladas; hoje é só vacas que olham para o céu como quem pede subsídios. Vale a pena ir lá ver — e vale a pena regressar a tempo do café pingado, que na “O Almendra” ainda vem com bolacha Maria grátis.
Ao entardecer, o sino dá seis badaladas e nenhuma delas pergunta se foste feliz hoje. Alguém fecha o portão do curral, outro acende o cigarro de rolha. A água da fonte continua a correr, indiferente a romarias, a IPs e a promessas. Se quiser levar uma garrafa, leve — mas não diga que não avisámos: o milagre é acordar cá em cima e ver que o mundo lá baixo ainda não acabou.