Artigo completo sobre Praia do Ribatejo: onde o Tejo guarda castelos e pontes
Praia do Ribatejo, em Vila Nova da Barquinha, Santarém, ergue-se junto ao Tejo com a primeira ponte ferroviária do rio e o embarcadouro para Almourol.
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O barco corta a água com um som surdo, motor a diesel misturado com o bater de pequenas ondas contra o casco de alumínio. À proa, o ilhéu granítico vai crescendo — muralhas de pedra que emergem do Tejo como se o rio as tivesse esculpido, não os homens. O castelo de Almourol revela-se aos poucos: ameias recortadas contra o céu, torre de menagem que vigia a corrente há oitocentos anos. Não há outra forma de chegar aqui senão pela água, e isso muda tudo. A travessia dura minutos, mas transporta séculos.
A ponte que uniu Portugal
Antes do castelo ser cartão-postal, Praia do Ribatejo era sobretudo um nome funcional — margem de ancoragem, ponto de descarga, lugar onde os barcos encostavam para aliviar carga. Mas foi em 1862 que a freguesia ganhou protagonismo nacional: a ponte ferroviária que aqui se ergueu foi a primeira a atravessar o Tejo em Portugal. Estrutura metálica apoiada em pilares de alvenaria, considerada na época uma das maiores obras de engenharia da Europa. O comboio a vapor começou a ligar Lisboa ao Ribatejo, e Praia do Ribatejo tornou-se passagem obrigatória. Hoje a ponte serve o trânsito rodoviário, mas a estação ferroviária permanece — edifício de linhas oitocentistas, testemunho silencioso da era do vapor.
A actividade económica floresceu em torno da madeira. Os toros desciam o Zêzere em flutuação, amarrados em jangadas, e eram retidos nas estacarias da Praia. Serrações movidas a água ou vapor cortavam o pinho e o eucalipto que alimentavam a construção em toda a região. As ruínas dessas instalações ainda marcam a paisagem ribeirinha — paredes de pedra cobertas de hera, vigamentos de ferro corroídos pelo tempo e pela humidade. No Inverno, quando o rio sobe, é fácil imaginar o burburinho de homens que gritavam, correntes que rangiam e madeiras que batiam umas nas outras.
Templários no meio da corrente
O Castelo de Almourol é Monumento Nacional desde 1910, mas a sua história recua ao século XII, quando a Ordem dos Templários o ergueu sobre as fundações de uma fortificação visigoda. A localização no ilhéu granítico não é acaso: controlar o rio era controlar o território. A Reconquista cristã avançava pelo interior, e Almourol funcionava como sentinela fluvial. As muralhas seguem o perfil irregular da rocha, adaptando-se à geografia em vez de a dominar. Lá dentro, o silêncio é denso — apenas o vento e o som distante da água. A torre de menagem oferece vistas sobre o Tejo que se estende em curvas largas, margens planas cobertas de vegetação ribeirinha, reflexos metálicos sob o sol da tarde. No cimo, o cheiro a zimbro e a pedra quente mistura-se com o odor salgado que sobe do rio.
Comer o rio
A proximidade com o Tejo reflecte-se na mesa. Enguia, sável e lampreia quando é época, arroz de peixe cozinhado devagar, migas para acompanhar. A sopa da panela é prato de inverno — feijão, couves, enchidos, tudo junto numa panela de barro que aquece as mãos antes de aquecer o corpo. O ensopado de borrego e o cozido à portuguesa mantêm-se fiéis à tradição ribatejana, onde a carne de borrego ganha tempero nos montados próximos. Os azeites DOP do Ribatejo são de acidez baixa, cor dourada intensa, ideais para temperar cru ou refogar devagar. Entre os doces, as trouxas de ovos — massa fina recheada de doce de ovos, dobrada como um envelope — desaparecem depressa das travessas. Se a d. Lurdes do Café Central as fez, não duram meia hora.
Água, pedra, ave
A confluência do Zêzere com o Tejo desenha uma paisagem plana, pontuada por choupos e salgueiros. A avifauna é rica: garças-reais pousam imóveis nas margens, gaivotas seguem os barcos de pesca, corvos-marinhos secam as asas abertas sobre rochas meio submersas. Não há trilhos sinalizados de grande projecção, mas as margens do rio convidam a caminhadas improvisadas, com pequenos miradouros naturais onde se estende uma toalha para piquenique. A canoagem é possível em troços calmos, remando junto às margens onde a corrente abranda. O castelo visto da água ganha outra dimensão — as muralhas reflectem-se no Tejo, duplicadas pela superfície lisa. Às seis e meia da manhã, quando o nevoeiro sobe do rio, o ilhéu parece flutuar.
A ponte da Praia do Ribatejo pode ser atravessada a pé. A meio do percurso, quando se está suspenso sobre a corrente, o rio corre por baixo com um murmúrio constante, indiferente aos carros que passam, às décadas que se acumularam desde que o primeiro comboio atravessou estas vigas de ferro. Se parares e deitares o olho entre os caixilhos, vês ainda os ferrolhos que seguravam os carris. Lá ao fundo, o ilhéu de Almourol permanece imóvel, como se o tempo não o tocasse — mas toca. Toca na ferrugem das velhas serrações, no musgo que cobre a pedra da estação, no barco que espera na margem para a próxima travessia.