Artigo completo sobre Alcácer do Sal: onde o rio guarda memórias de sal
Santiago ergue-se sobre o Sado entre castelos mouros, enguias frescas e golfinhos residentes
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O cheiro do ensopado de enguias sobe da taberna da Avenida dos Aviadores, misturando-se ao salitre que vem do Sado. A maré está baixa e, nas margens do rio, pequenos cristais de sal cintilam ao sol da tarde como migalhas de vidro partido. Um bando de flamingos levanta voo do sapal, traçando uma linha cor-de-rosa contra o azul pálido. Na colina, a torre de menagem do castelo — agora pousada — ergue-se sobre telhas de barro que descem em cascata até à água. Alcácer do Sal respira pelo rio: sempre respirou.
O castelo que vigiou quarenta milénios
A ocupação humana neste promontório remonta ao Paleolítico Superior, com vestígios no Castro da Senhora da Guadalupe. Os romanos baptizaram o porto de Sallacia — o lugar do sal — e construíram estaleiros, arsenais e depósitos que alimentaram rotas mediterrânicas. Depois vieram os visigodos, que fizeram da cidade sede episcopal entre 583 e 715, e os árabes, que no século VIII lhe deram o nome de Al-Qasr al-Sal, o castelo do sal. D. Afonso Henriques conquistou-a em 1158, mas a vila voltou a cair até que D. Afonso II a retomou definitivamente em 1217, entregando-a à Ordem de Santiago em 1218. Desse tempo ficaram a Igreja de Santa Maria do Castelo, com retábulo manuelino de 1517-1520 atribuído a João de Castilho, e o pelourinho manuelino que ainda hoje se ergue na praça. Em 1495, D. Manuel I foi aclamado rei nesta vila; sete anos depois, nasceria aqui Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo de D. João III, autor do Tratado da Esphera (1537). O sal pagou igrejas, solares e conventos — como o de Santo António, de fachada branca no centro histórico, fundado em 1520.
Quando o Sado traz enguias e golfinhos
O estuário do Sado desenha canais e ilhas onde habitam cerca de trinta golfinhos-roazes de forma residente, fenómeno raro na Europa. A Reserva Natural do Estuário do Sado — zona Ramsar desde 1980 — acolhe entre 500 a 1500 flamingos, garças e cegonhas-brancas. Nas faluas tradicionais que partem do Cais da Carrasqueira para Tróia, é comum avistar barbatanas cinzentas a cortar a água. Em terra, os trilhos do montado de sobro conduzem ao Moinho de Maré da Mourisca, estrutura do século XVIII coberta de musgo onde a água ainda entra e sai ao ritmo ancestral das marés. O Trilho do Sal percorre 6,5 quilómetros entre antigas salinas da Companhia das Lezírias; no Verão, o calor faz tremer o ar sobre os tanques vazios.
Migas, enguias e fogaços de Quaresma
Na cozinha de Alcácer, o rio e o montado encontram-se. Ensopado de enguias do Sado com pão de Alentejo, migas de bacalhau com hortelã, arroz de lebre à moda de Alcácer, carne de porco à alentejana com amêijoas do Sado. A doçaria traz tibornas — fatias de pão frito com mel de Rosmaninho — e queijadas de requeijão da Confeitaria Maria Luísa desde 1962. Nos domingos de Quaresma, partilham-se os fogaços, pão doce de 2 kg passado de mão em mão em roda na Praça da República. O azeite é do Alentejo Interior DOP; o queijo, de Serpa; o cabrito, alentejano IGP. Os vinhos da Península de Setúbal — Moscatel de Setúbal, Arinto, Trincadeira — acompanham a mesa.
O sal que brilha à beira do rio
Ao cair da tarde, a luz rasante ilumina a fachada da Igreja Matriz de Santiago, construída em 1288 e reconstruída após o terramoto de 1755, com talha dourada barroca de 1740. Nas vielas do centro, brasões de pedra marcam portais de casas nobres; o Arco da Rua da Cadeia enquadra um rectângulo de céu entre muros caiados. No dia de Santiago, 25 de Julho, a procissão sobe ao castelo ao som de cânticos; em Setembro, o Círio de Nossa Senhora da Saúde desce o rio em barcos enfeitados desde 1929. Quando a maré vaza por completo, as margens do Sado descobrem-se — lama escura, raízes de caniço e, aqui e ali, um brilho branco que denuncia o sal. É o mesmo sal que os romanos carregavam há dois mil anos, o mesmo que deu nome ao castelo e à cidade, o mesmo que ainda hoje cristaliza ao sol nas salinas abandonadas da Mourisca, teimoso, paciente, eterno.