Artigo completo sobre Santa Susana: onde o montado respira ao ritmo lento
Freguesia alentejana de cortiça, águias-pesqueiras e produtos DOP entre sobreiros e o vale do Sado
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O silêncio do montado estende-se até onde a vista alcança, partido apenas pelo estalar seco de um ramo sob as patas de um javali esquivo ou pelo ranger familiar do cancelo da herdade do Seixal quando o tractor do Joaquim regressa do campo. Santa Susana respira ao ritmo lento da planície, onde os vizinhos vivem a quilómetros de distância e onde a solidão se mede no tempo entre dois clarins de telemóvel. Às cinco da tarde, quando o sol se inclina, a lua já se adivinha no céu pálido e as copas dos sobreiros parecem incandescentes - é a hora em que as aves voltam aos ninhos e os trabalhadores às casas baixas de paredes caiadas.
Capelas, Cortiça e Memória
Dizem que a capela de Santa Susana foi erguida onde agora só restam alguns silos de ração e um muro de pedra que o tempo foi comendo. Nem os mais velhos sabem ao certo - o que importa é que o nome pegou e que a devoção se transferiu para a igreja matriz, onde as velas ainda se acendem aos domingos antes da missa das nove. A cortiça marcou vidas inteiras: o meu avô descascava sobreiros desde os catorze anos, voltava para casa com as mãos tingidas de vermelho que nem a gasolina tirava. Hoje, os descortiçadores são brasileiros ou romenos, mas os troncos nus continuam a mesma ferida aberta na paisagem, exposta ao vento que sobe do Sado.
Produtos que Falam de Terra
No café do Zé, o azeite novo chega em garrafas de plástico que ele enche directamente do lagar - dois euros o litro, se trouxeres a tua garrafa. O cabrito do Toninho é conhecido até em Évora, assado durante seis horas no forno que o pai construiu com tijolos de barro. Ninguém fala em DOP ou IGP - fala-se no caseiro que ainda faz queijo com o leite das suas cabras, na vizinha que mata o cabrito só quando há festa, no vinho tinto que o Seu António faz na adeira e que cai que nem uma bênção num dia de calor. A terra dá o que dá: mel de rosmaninho quando chhega a primavera, laranjas azedas no quintal das casas antigas, pêssegos que maduram sob um sol que parece nunca mais se pôr.
Entre o Montado e o Estuário
A estrada municipal 521 serpenteia entre sobreiros e azinheiras até à herdade da Comenda, onde o estuário do Sado se anuncia pelo cheiro a maresia que chega em dias de norte. São quinze minutos de carro até ao primeiro pantanal onde os flamingos se reunem - mas aqui ninguém lhes tira fotografias, são como as cegonhas que nidificam nas chaminés abandonadas ou como as águias-pesqueiras que sobrevoam o montado: fazem parte do cenário como o xisto e a cortiça. O caminho de terra que vai da Póvoa para o Carrascal tem os paralelos marcados pelas rodas dos tratores - é ali que, em Outubro, se encontram os primeiros cogumelos e onde, em Janeiro, a terra molhada exala um perfume a madeira queimada misturada com resina.
Tranquilidade Sem Artifício
Não há aldeia propriamente dita - há lugares. Lugares como o Carrascal, onde a escola fechou há vinte anos e onde agora só se ouve o rumor do vento nos eucaliptos. Lugares como a Póvoa, onde o café-abastecimento ainda vende broa quente às sete da manhã. Lugares como o Barroil, onde o coreto da festa aguenta-se de pé por milagre e onde, em Agosto, se monta a tourada com garraios trazidos de Alcácer. Para quem vem de fora, é isto que espanta: a vastidão do espaço vazio, a forma como o silêncio se enche de ruídos pequenos - o zumbido de uma abelha, o estalar da bolha de ar numa garrafa de água, o som distante de uma motosserra que ecoa pelo montado fora.
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás dos sobreiros da herdade de São Lourenço e as primeiras estrelas começam a apontar, o cheiro a lenha queimada mistura-se ao da terra que arrefece. É nesta hora - entre a claridade que se vai e a escuridão que chega devagar, quando os cães das herdades ladram umas às outras através de quilómetros de silêncio - que Santa Susana mostra o que é: um sítio onde o tempo se mede em estações, não em horas, onde o espaço se mede em silêncios, não em quilómetros.