Artigo completo sobre Almada, Cacilhas e Cova da Piedade: vida na margem sul
Quatro freguesias unidas frente ao Tejo, entre ferryboats, memória árabe e 49 mil habitantes
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O motor do ferryboat tosse uma última vez antes de se calar contra o cais de Cacilhas. A rampa desce com um rangido metálico e o cheiro do Tejo — sal, lodo, gasóleo — sobe de imediato pelas narinas. Do outro lado do rio, Lisboa reluz na luz da tarde como um postal descorado pelo sol, mas aqui, nesta margem, os pés assentam numa terra diferente: mais densa, mais vertical, mais vivida do que a imagem que se vê ao longe. É a União das freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas — quase 49 mil habitantes comprimidos em pouco mais de seis quilómetros quadrados, uma densidade urbana que se sente nos passos apressados ao longo do cais, no eco das conversas que ressaltam das fachadas dos prédios ribeirinhos, no ranger das gaivotas que disputam território com os pombos.
O nome que veio do árabe
Almada carrega na fonética a memória de quem por aqui passou. O topónimo vem do árabe al-madina — a cidade — e a palavra encaixa-se com naturalidade num lugar que foi romano, visigodo, mouro, e que em 1255 se constituiu formalmente como freguesia. A fusão administrativa de 2013 juntou quatro núcleos distintos — Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas — mas a sobreposição de camadas históricas já existia muito antes de qualquer decreto. Caminha-se pela zona alta de Almada e a Igreja de São João Baptista ergue-se com a solidez de quem testemunhou séculos de procissões em Junho, quando as festas do santo padroeiro enchem as ruas de música e de cheiro a sardinha no carvão. Mais abaixo, na Cova da Piedade, a Capela de Nossa Senhora da Piedade guarda a devoção de um bairro que cresceu entre estaleiros e oficinas. No Pragal, a Igreja de Nossa Senhora do Pragal marca o ponto onde a cota sobe e a brisa do Tejo cheira a pinho e terra molhada. E em Cacilhas, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição preside ao casario que desce até ao rio, lembrando que a 8 de Dezembro a freguesia ainda se veste de festa para honrar a padroeira.
Setenta metros de betão e gratidão
O Cristo-Rei não se esconde. Com os braços abertos sobre o estuário, o monumento inaugurado em 1959 é visível de quase todo o lado — mas é de baixo, quando se caminha pelo miradouro adjacente, que a escala se impõe verdadeiramente. A brisa bate com força a esta altitude, e o betão, aquecido pelo sol da tarde, irradia um calor seco que contrasta com a humidade do rio lá em baixo. A estátua foi erguida como acto de gratidão por Portugal ter sido poupado à destruição da Segunda Guerra Mundial, inspirada no Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Daqui, o olhar abrange a Ponte 25 de Abril — que o Caminho Central Português de Santiago atravessa, ligando esta margem aos caminhos de peregrinação que seguem para norte — e, mais além, o casario de Lisboa que parece miniatura recortada contra a Serra de Sintra.
Onde o Tejo sabe a caldeirada
A zona ribeirinha de Cacilhas foi durante séculos um porto fluvial de primeira importância, e essa vocação marítima infiltrou-se na mesa. A caldeirada de peixe é o prato que melhor traduz a relação com o rio: camadas de batata, cebola e peixe variado, cozinhadas lentamente até que o caldo adquira aquela espessura turva e aromática que só o tempo no lume garante. Na Doca, o Ponto Final serve-a ainda a fumegante, com fatias de pão alentejano para molhar. A sardinha assada domina os meses quentes, e o arroz de marisco aparece com frequência nas ementas, ao lado do inevitável bacalhau à Brás. Para fechar, pastéis de nata ou bolos de arroz — e um copo de Moscatel de Setúbal, o vinho licoroso da Península de Setúbal que aqui se bebe com a naturalidade de quem bebe água. A região vinícola estende-se para sul, mas é nestas mesas junto ao cais que o Moscatel encontra o seu contexto perfeito: o doce do vinho contra o sal do ar.
Falésias que guardam milhões de anos
A freguesia integra a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, e os trilhos que percorrem as falésias fossilíferas são uma lição de geologia a céu aberto. As camadas de sedimento, em tons de ocre e cinzento, comprimem eras inteiras em poucos metros de rocha exposta. O vento sopra do Atlântico com uma constância que obriga a apertar o casaco, e o som do mar rebenta contra a base das arribas com uma cadência grave, quase subterrânea. A elevação média da freguesia — pouco mais de 64 metros — permite estas transições bruscas entre o planalto urbano e a orla costeira, entre o asfalto denso e a areia compacta. Ciclovias e percursos pedonais ao longo da margem do Tejo oferecem uma alternativa mais suave, com o rio sempre à vista e o ruído dos barcos a substituir o das vagas.
O ferry como ritual quotidiano
Há 274 alojamentos registados na freguesia — apartamentos, moradias, hostels, quartos — e a logística de acesso é das mais simples do país: basta apanhar o ferry em Lisboa e em dez minutos está-se do outro lado. Mas a travessia não é apenas transporte. É o momento em que a cidade se afasta, a linha de água se alarga e o vento muda de direcção. É uma fronteira líquida que separa dois mundos que se veem mutuamente mas que se vivem de forma distinta. Esta margem tem mais idosos do que jovens — mais de 14 mil residentes acima dos 65 anos contra pouco mais de cinco mil abaixo dos 15 — e essa proporção sente-se no ritmo dos cafés ao meio da manhã, nas conversas pausadas nos bancos de jardim, na cadência com que os dias se sucedem sem a urgência turística da outra margem.
Ao fim da tarde, quando o ferry parte de Cacilhas carregado de passageiros e o motor volta a tossir contra a corrente, fica no cais aquele silêncio breve — dois, três segundos — em que só se ouve a água a bater nos pilares de betão e o grito agudo de uma gaivota a reclamar o seu território. É nesse intervalo, nessa pausa exacta entre a partida e o regresso, que Almada se revela por inteiro: não como cenário de Lisboa, mas como lugar próprio, com o peso da sua pedra e o sal do seu rio.