Artigo completo sobre União das freguesias de Caparica e Trafaria
Entre arribas fósseis e praias atlânticas, uma freguesia moldada pelo sal e pela história marítima
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O cheiro chega primeiro. Nem é do mar — é da sardinha a torrar no carvão, do iodo que se agarra ao casaco, da roupa estendida que nunca seca de todo. Na Caparica, o Atlântico não se anuncia: dá-te com ele na cara. O vento empurra-te a areia para dentro do sapato, cola-te o cabelo à testa, faz-te perder o chapéu. E no meio disto tudo, há sempre um gajo a gritar "con-quil-has fres-cas" como se fosse a coisa mais urgente do mundo.
Alcaparras, sal e a ponte para o fim do mundo
Caparica vem da alcaparra que crescia nas fendas da arriba — isto antes de aparecer o primeiro lisboeta a dizer que aquilo era o sítio ideal para uma casa de veraneio. Trafaria, para quem não sabe, é mesmo a ponta: onde o Tejo se cansa e se entrega ao mar. Juntaram-nas num papel qualquer em 2013, mas quem cá vive sabe que são duas aldeias separadas por um areal e umas quantas gerações de pescadores.
A Igreja da Guia, reconstruída em 1758 depois do terramoto, ainda lá está — branca por fora, dourada por dentro, como se quisesse compensar a roubada que foi aquela onda gigante.
As falésias que comem terrenos de ténis
Sube a arriba por entre os pinheiros e vês o mar lá em baixo a bater como se quisesse subir. São 13 km de costa que mostram camadas de areia como se fossem fatias de bolo — aqui um dente de tubarão fossilizado, ali uma pegada de um bicho que nem sabemos como se chamava. O trilho da PR1 é aquele que o pessoal faz no domingo para justificar o almoço — 6 km, duas horas, e uma vista que faz esquecer que na segunda-feira há reunião às 9h.
O eléctrico que se perdeu nas dunas
Entre 1940 e 1975, havia um eléctrico a ligar Cacilhas à Trafaria. Carris na areia, como se fosse coisa normal. Hoje ainda se encontram pedaços do carril quando a maré baixa e a areia está com vontade de contar histórias.
O surf chegou em 69, na praia do CDS. Hoje, as escolas multiplicaram-se como cogumelos depois da chuva. Na Lagoa de Albufeira, o pessoal faz stand-up paddle enquanto as garças olham de lado, tipo "estes gajos não têm mesmo nada que fazer".
Procissões, sardinhadas e bolas de Berlim que acabam antes de chegares à fila
Segundo domingo de Maio: os barcos saem enfeitados para a procissão da Madre de Deus. Dizem que quando a ermida desaparece de vista, é hora de virar costas — eles que o digam, que eu nunca fui de barco nenhum.
Agosto é a Festa da Guia: arraial, música pimba e aquela fila para as sanitas químicas. Em Janeiro, os Reis vão de porta em porta cantar as janeiras. Pagam-te em umas moedas e um copo de aguardente — nesta altura, até o padre perdoa.
A mesa é o que é: caldeirada de enguias que escaldam a língua, peixe grelhado no espeto de louro que sabe a fumo e a mar. As bolas de Berlim são daquelas que a miúda traz no tabuleiro de alumínio — se hesitas, perdes. As tortas de amêndoa da Trafaria acabam antes do meio-dia, como se fossem bilhetes para o concerto dos Rolling Stones.
O bairro onde ainda se pode viver sem instagram
Longe da marginal, a Trafaria verdadeira é ruelas estreitas, televisões a abrir-se para a rua, miúdos a jogar à bola entre carros estacionados. As fábricas de conservas fecharam, mas a chaminé ainda lá está — um dedo do meio erguido para quem acha que o progresso é sinónimo de arranha-céus.
São 26 mil e tal pessoas, mas parecem mais quando o verão enche a costa de lisboetas em fuga. Os velhos continuam no banco de pedra, a olhar para o rio como quem espera que o táxi-boat traga de volta alguma coisa que ficou para trás.
E é isto. Não é o sítio mais bonido do mundo. Mas é o sítio onde o mar cheira a mar, o peixe sabe a peixe, e onde ainda se pode perder uma tarde inteira a discutir se a bola de Berlim leva ou não leva creme.