Artigo completo sobre Laranjeiro e Feijó: memória agrícola entre prédios
Quarenta mil habitantes numa freguesia onde laranjais e hortas resistem entre blocos de betão
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O autocarro trava na rotunda e a porta abre-se para um ar que carrega, em simultâneo, o escape da Estrada Nacional 10 e um resquício vegetal — qualquer coisa entre terra húmida e folha de figueira — que escapa de um quintal encravado entre dois prédios de cinco andares. É essa a primeira respiração do Laranjeiro-Feijó: uma freguesia de 39 584 pessoas (Censos 2021) onde a densidade urbana, superior a 5 000 habitantes por quilómetro quadrado, não conseguiu sufocar por completo os vestígios de um passado agrícola que teima em reaparecer nos sítios mais inesperados.
A memória dos laranjais sob o betão
O nome diz tudo e não esconde nada. Laranjeiro existiu porque aqui existiram laranjais — pomares que, num tempo anterior ao betão armado, coloriam de verde e laranja esta encosta suave a cerca de cinquenta metros acima do nível do Tejo. Em 1964, a Câmara de Almada aprovou o primeiro plano de urbanização do Laranjeiro: 1 600 fogos, projectados pela Junta de Construções para Habitação Económica, para alojar os trabalhadores que atravessavam o rio todos os dias rumo às fábricas de Lisboa. Feijó, contíguo mas distinto, manteve durante mais tempo as suas raízes rurais. Até 1980, ainda se podia encontrar o casario original de ruelas estreitas e chãos de terra batida, hoje substituído pela malha ortogonal das ruas 1.º de Maio, 5 de Outubro e 25 de Abril.
A fusão administrativa de 2013 juntou estas duas realidades num único território de 7,88 km². Mas caminhar do Laranjeiro (junto à estação do Metro-Sul, inaugurada em 2004) para o Feijó (terminando na Igreja de Santo António, construída em 1957) é perceber que a fusão burocrática não apagou as identidades: muda a escala dos edifícios, muda o ritmo dos passos na calçada, muda o grau de silêncio que se consegue encontrar ao virar de uma esquina.
Dois monumentos, dois tempos
A freguesia conta com dois monumentos classificados — um Monumento Nacional e um Imóvel de Interesse Público — que pontuam a paisagem construída com a gravidade da pedra antiga no meio do casario recente. O Monumento Nacional é a Capela de Nossa Senhora da Saúde (século XVI), no Feijó, com o seu portal manuelino recuperado em 1998. O IIP é o Palácio do Relógio (século XVIII), actualmente sede da Junta de Freguesia, onde funcionou a estação telefónica manual até 1978. São marcos que obrigam o olhar a recuar séculos, a recalibrar a percepção de um território que, visto de relance pela janela do comboio, poderia parecer apenas suburbano.
A arriba fóssil e o corredor verde
A sudoeste, a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica fica a 3,5 km em linha recta. A sua proximidade lembra que esta margem do Tejo não é apenas dormitório — é território com relevo, com falésias esculpidas por 10 milhões de anos de erosão, com estratos de arenito e calcário que guardam conchas do Miocénico. A elevação média de 52 metros coloca a freguesia numa plataforma que, nos dias limpos de inverno, quando o ar fica cortante e transparente, permite vislumbrar o estuário e adivinhar a silhueta de Lisboa do outro lado da água.
A peregrinação que atravessa o quotidiano
O Caminho Central Português de Santiago passa por aqui. Entra na freguesia pela Rua João de Deus (junto ao Centro de Saúde) e sai pela Estrada da Torre da Marinha, seguindo as setas amarelas pintadas pela Associação de Amigos dos Caminhos de Santiago. Há 35 alojamentos registados na plataforma oficial — desde o apartamento T2 na Rua da Mina onde D. Rosa aluga dois quartos desde 2015, até ao quarto individual na Rua Professor Egas Moniz onde se pode acampar no jardim. Os peregrinos cruzam-se com os utentes do Centro de Dia na porta do Pingo Doce, ambos às 8h da manhã.
Uma freguesia que envelhece — e que resiste
Os números dos Censos de 2021 revelam uma estrutura demográfica que pesa mais no topo: 8 819 residentes com 65 ou mais anos contra 5 478 jovens até aos 14. É uma diferença que se sente no Centro de Convívio do Laranjeiro (aberto desde 1998), onde 120 senhoras jogam bingo às terças-feiras, enquanto as crianças estão na EB1 do Feijó (construída em 1976) ou no Centro Escolar do Laranjeiro (inaugurado em 2012). Ao final da tarde, a equação inverte-se: os passeios enchem-se de mochilas da Escola Básica da Mina, de bolas do 1.º de Maio FC (fundado em 1975), do ruído metálico das bicicletas que descem a Rua dos Lusíadas.
A inserção na região vinícola da Península de Setúbal é um dado que raramente se associa a uma freguesia tão urbana, mas que recorda a vocação agrícola do solo. As vinhas ficam a sul, nas freguesias de Trafaria e Caparica, mas o moscatel de Setúbal do Azeitão chega às tascas da Rua 1.º de Maio em garrafas de 1 litro, servido a 60 cêntimos o copo no Café O Manel, onde se joga sueca às sextas-feiras.
O som que fica
Há um momento, ao fim do dia, em que o trânsito na N10 abranda e se ouve, vindo do quintal da Rua do Ferragial, o repuxo de uma mangueira a regar canteiros — um som líquido, insistente, quase anacrónico no meio de tanta urbanização compacta. É esse o som que define esta freguesia melhor do que qualquer descrição: a persistência teimosa da terra cultivada, da água que cai sobre folhas de couve e raízes de tomateiro, entre dois prédios de cinco andares onde 39 584 pessoas constroem, todos os dias, uma vida que não precisa de ser espectacular para ser inteiramente real.