Artigo completo sobre União das freguesias de Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena
Três freguesias unidas no Barreiro, entre estaleiros históricos, memória operária e o pulsar urbano
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O vento que sobe do Tejo cheira a sal e a algo mais — um cheiro metálico, de navios e de contentores, que se cola à roupa como recordatório. Desço a Rua Vasco da Gama, passo pelo Café Aviz e pelo Santander, e o cheio vai comigo. Na estação do Barreiro, os cacilheiros entram e saem com a pontualidade de um relógio Suíço. A brisa empurra-se pela Rua Almirante Reis acima, raspa nas fachadas da Alves Redol, do Liceu Almeida Garrett, até ao planalto onde o Hospital Nossa Senhora do Rosário domina a paisagem. São 43 metros de altitude — pouco para quem vem de Lisboa, mas aqui chega para que, nas manhãs de inverno, o nevoeiro fique preso entre os prédios do Centro e as palmeiras do Jardim do Sapal. Quando o sol rompe, ilumina tudo de uma vez: o Intermarché, o Pingo Doce, as gaivotas em cima do Celeiro da Praça, a Nesga de Tejo que se vê desde o miradouro do Alto do Seixalinho.
Esta é a União das Freguesias de Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena, no miolo do Barreiro. Não é um postal. São 41 296 pessoas esmagadas em 7 km² — 5 900 hab./km², mais densidade que no Porto — onde a fábrica da Quimigal, a refinaria da Petrogal, a Siderurgia Nacional e os armazéns da Lisnave deixaram feridas que a cicatrizou com blocos de cinco andares, escolas básicas, jardins públicos e cafés com televisão ligada ao desporto. A história industrial fica no ar, nas ruas chamadas Alfredo César Torres, Camilo Castelo Branco ou Antero de Quental. A vida ribeirinha fica no cheiro, no choco frito do restaurante O Pescador, na Caldeirada do Taska d’Avó, no peixe-espada com arroz de tomate que o Zé da Tasca serve às sextas sem precisar de escrever na porta.
As naus que partiram da Telha
Antes do betão, antes da CP, antes da A33, havia a Quinta da Telha, onde hoje dormem os contentores da Sadoport. Documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo falam em “esteiro da Telha” em 1535. Ali cortava-se madeira de pinho do Pinhal do Rato, ali se calafatavam naus que iam para Índia com azulejos de Bacalhau na despensa. Caminhar hoje pela Rua João de Deus, entre o Centro de Saúde e o supermercado Minipreço, é pensar na ironia: quem um dia mandou caravelas agora apanha o barco para o Cais do Sodré em 20 minutos — se o Swell não avariar.
O Alto do Seixalinho cresceu em redor do Caminho do Meio, onde o pessoal vinha de bicicleta das hortas da Verderena vender couves ao Barreiro. A viragem foi mesmo o caminho-de-ferro: 1 de Maio de 1861, estação inaugurada por D. Pedro V, ligação ao Alentejo, comboios a vapor a apitar que nem desesperados. A Quimigal chegou em 1908, a Lisnave em 1937, trouxerem operários de Beja, de Évora, de Cuba e de Aljustrel. Nasceram as ruas de palavras cruzadas: Gilberto n.º 4, Rosa n.º 18, Manuel n.º 42 — casas de quatro portas, água no poço, latrina no fim do corredor. Ainda hoje, quem viveu na Bairro 1º de Maio diz “vou ali ao quarteirão” e toda a gente sabe que é ao bloco G-H.
Verderena guarda o nome da antiga quinta e da ermida de São Marcos, onde hoje fazemos piqueniques no dia de S. Martinho. O arquitecto Raul Lino desenhou ali, em 1913, uma casa de verão para o Dr. Sousa Martins — hoje é o Centro Escolar de Verderena, onde as crianças almoçam sopa de legumes e fazem teatro com a professora Sofia.
Dois monumentos, seis séculos de sedimento
O Pelourinho de Santo André (séc. XVI) está encostado ao Posto de Abastecimento da Galp, na Rotunda do Feijó. Poucos sabem que ali se julgavam escravagens e dividiam-se terras de semeadura. Passas de carro, vês a pedra lascada, lês “...DD...1637” e segues para o trabalho. A Igreja Paroquial de Santo André, mandada construir por D. Manuel I em 1514, tem campanário em estilo manuelino e azulejos de Tapada da Ajuda do século XVIII. O altar-mor é de madeira de carvalho que chegou em barco pela Ribeira do Barreiro. Do lado de fora, a obra de restauro de 2023 deixou andaimes até Dezembro; dentro, a missa das 11h de domingo ainda enche as 120 cadeiras de madeira.
A cidade que respine entre gerações
Censos 2021: 5 013 miúdos até aos 14 anos, 11 457 velhos com mais de 65. A freguesia envelhece, mas as escolas aguentam-se: três básicas (Santo André, Verderena, Dona Berta), duas secundárias (Alves Redol e JI da Verderena). Sábado às 9h, o parque de estacionamento do Pingo Doce é uma festa de pais com crianças no carrinho, o avô a guardar o lugar, o café no Balla ou no O Girassol. Na esplanada do Café Avenida, o António, reformado da Lisnave, conta que “o Sapal era sapal mesmo, cheio de rãs; hoje é jardim e tem wifi”. A Câmara plantou palmeiras e pôs bancos de madeira; os velhos jogam sueca, os novos correm 5 km com aplicativo no telemóvel.
Alojamento? 44 unidades registadas, zero resorts. Há T1 no Alto do Seixalinho por 550 €/mês, T2 na Rua Almirante Reis por 750 €, quarto para estudante na Verderena por 200 € com pequeno-almoço incluído. O Airbnb mais barato fica na Rua Dona Berta, tem vista para o pátio interior e para a igreja, e o dono chama-se Vítor: “Há estacionamento, mas tem de deixar o carro apertado, senão o Camião do lixo não passa.”
O sal no ar e o vinho na margem
Moscatel de Setúbal, casta única, 10 000 hectares entre Palmela, Azeitão e o Barreiro. Bebe-se em copo de ⅛ no Tasquinha do Manel, acompanha amêijoas à Bulhão Pato do Mercado Municipal. A garrafa do produtor José Maria da Fonseca custa 6 € no supermercado; a do Hetemann, da Quinta do Anjo, 9 € na loja Casa do Concelho. Quando sopra nortada, o cheiro do estuário mistura-se com o fermento das caves: é a combinação que diz “estás em casa”.
O som que fica
Às 18h45, o ferry “Cidade do Barreiro” apita duas vezes, larga do cais 2, deixa escapar um ronco de diesel e abre vão até Lisboa. O som reverbera nas fachadas da Câmara, na freguesia, no Jardim das Comemorações, sobe a Rua Hintze Ribeiro e perde-se no Campo da Bola. Quem nasceu aqui deixou de ouvir; quem visita leva-o no bolso, como o bilhete de 2,50 € que ainda cheira a ozono.