Artigo completo sobre Grândola: onde o xisto guarda a memória de Abril
Vila alentejana entre montado e serra, marcada pela canção que mudou Portugal para sempre
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O calor sobe do chão em ondas lentas, como se a própria terra respirasse. O ar cheira a resina de pinheiro e a casca de sobreiro aquecida pelo sol de meio-dia. Sob os pés, o xisto escuro da serra absorve a luz e devolve-a em reflexos quase metálicos. É neste silêncio espesso — interrompido apenas pelo estalar seco de uma bolota a cair no montado — que se descobre Grândola, uma vila que carrega no nome o peso do latim grandis, e nos ombros, o peso de uma revolução.
A madrugada de 25 de Abril de 1974 transformou estas quatro sílabas num grito colectivo. "Grândola, Vila Morena", a canção de José Afonso, ecoou nos rádios como segundo sinal para o Movimento das Forças Armadas, e desde esse instante o nome desta vila alentejana ficou inscrito na memória do país com a força de um hino. Mas quem chega a Grândola apenas com essa canção na cabeça precisa de recalibrar os sentidos. Há aqui muito mais do que um símbolo político — há um território vasto, com mais de 416 quilómetros quadrados de serra, charneca e montado, onde vivem pouco mais de dez mil pessoas numa cadência que obedece ao ritmo das estações e não ao dos relógios.
Xisto e cal, duas igrejas, duas memórias
A Igreja Matriz de Grândola está onde tem de estar: no centro da vila, mesmo em frente ao café onde o pessoal vai aos domingos depois da missa. Parece grande quando se é miúdo, depois percebe-se que é só a luz do Alentejo a brincar com a fachada. Lá dentro, a penumbra cheira a cera e a roupa guardada — aquela frescura que só quem já entrou nu em Agosto sabe apreciar. A uns quilómetros, a Igreja de Santa Margarida da Serra é mais pequena, mas tem a mesma luz a entrar pelas frestas, e o mesmo silêncio que faz apercebermo-nos do barulho dos nossos próprios pés. Ambas estão classificadas como Imóveis de Interesse Público, o que significa que não as podemos deitar abaixo — mas também que ninguém as vai arranjar enquanto o Estado não der o dinheiro. Entretanto, os degraus vão-se gasto com os pés de quem vai rezar ou só quer sentar-se à sombra.
Espalhadas pela terra há ainda umas quantas ermidas que parecem saídas de um filme do Oliveira. São de cal e pedra, com uma cruz por cima e uma porta que range. Ninguém as visita, mas toda a gente sabe onde ficam — servem para dar indicações: "vai ali para a ermida do Senhor da Pedra e depois vira à esquerda".
Entre a serra e a charneca, dois mundos num só lugar
A Serra de Grândola é xisto, isto é, é aquilo que faz ranger os dentes quando se morde a terra num dia de vento. O chão range também, mas é um som que se aprende a gostar — é o barulho de quem caminha sem pressa. Os sobreiros parecem velhos do Restelo que viraram árvores: tortos, descascados, mas sempre lá. A cortiça tira-se de quatro em quatro anos, e quando se tira o tronco fica vermelho como quem se esfolou o joelho. Mais abaixo, a charneca é areia e pinheiros que cheiram a rebuçado de menta. O ar é mais leve, o solo é mais pobre, mas é lá que se fazem os melhores passeios de domingo — com os sapatos a encherem de areia e os miúdos a perderem-se entre os medronheiros.
O rio Davino não é um rio de que se fale aos amigos. É uma linha de água que só se vê no Inverno, mas que no Verão mantém os sacos à beira das ribeiras com mais sombra. A sul, toca na Reserva Natural do Estuário do Sado — onde os flamingos fazem paragem como quem vai ao Açougue de Melides e decide entrar só para ver se há peixe fresco. Levem binóculos, mas não façam barulho: as aves são como os alentejanos, assustam-se com facilidade.
O que a terra dá ao prato
Grândola não é terra de fartura, é terra de "se aproveitar". O que se come aqui tem gosto a o que é: o borrego é borrego, o cabrito é cabrito, o porco preto é porco preto — e não há molho que disfarce. O Borrego do Baixo Alentejo IGP vem das pastagens onde se vê mais xisto que relva; o Cabrito do Alentejo IGP é daqueles que ainda mamavam há dois dias. A Carne de Porco Alentejano DOP é do porco que andou a comer bolotas e a correr atrás da sombra — por isso é que sabe a amêndoa e a ar livre. O Queijo Serpa DOP é meio mole, meio amargo, e vai bem com um pão que não é de forma — é daquele que se parte à mão e faz migalhas na toalha de linho.
Nos 257 sítios onde se pode dormir — desde casas de campo com piscina a quartos dentro de casas de família — a comida é o que vem da terra. Não é gourmet, é "como se fosse para nós". Pão, azeite, um prato de carne, um copo de vinho tinto que não pergunta a casta. Quem vem de Lisboa acha que é simples; quem cá vive sabe que é só o essencial.
Caminhar devagar, ouvir o montado
Os trilhos são ali, mesmo à saída da vila. Não há grandes placas, mas também não é preciso: é só seguir o caminho de terra e contar os sobreiros. A cada dez passos há um, a cada vinte há uma azinheira. O silêncio é tal que se ouve o próprio suor a cair. A densidade populacional é tão baixa que, a certa altura, a única companhia é um javali que se esconde mais depressa do que nós. Levem água, levem um chapéu, e não contem com rede móvel — mas isso é meio mundo, hoje em dia.
À tarde, os bancos da praça enchem-se de gente que já não tem pressa. Os velhos falam da chuva, dos netos, daquele que foi para França e nunca mais voltou. Os jovens estão no café a ver o telejornal em silêncio. A população está envelhecida, sim — mas também está viva. E quem chega de fora, farto de ruído, descobre que isto é um sítio onde ainda se pode ouvir a própria respiração.
Ao cair da noite, a serra torna-se um recorte negro e o ar fica frio de repente. É nessa hora — quando o xisto desaparece, quando só se ouve um mocho ou o cão do vizinho a ladrar a quilómetros — que Grândola deixa de ser um nome numa canção e se torna um sítio onde se pode estar. Sem mais.