Artigo completo sobre Montijo e Afonsoeiro: entre a lezíria e o estuário
União de freguesias ribeirinhas com património pombalino e tradição ligada ao Tejo e aos arrozais
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O primeiro som é o de água a bater contra madeira velha. No cais fluvial do Montijo, os esteiros do Tejo lambem os pilares escurecidos pelo sal e pelo limo. A briza traz cheiro a vasa e a maresia. Do outro lado, Lisboa fica a vinte e cinco minutos de barco. Quem está aqui sente os pés assentes num mundo diferente — mais lento, mais húmido, mais próximo do chão.
A elevação média não chega aos treze metros. É quase tudo planura. O nome vem do latim monticulus, monte pequeno. A «Aldeia do Montijo» fundou-se em 1295 sob a tutela da Ordem de Santiago. Hoje, quarenta e um mil habitantes ocupam pouco mais de trinta quilómetros quadrados.
O casario que sobreviveu ao abalo
O terramoto de 1755 destruiu muito. A reconstrução pombalina deixou casario alinhado e fachadas de cal sobre alvenaria grossa. O Pelourinho, classificado como Imóvel de Interesse Público, ergue-se numa praça onde a pedra irradia calor ao fim da tarde. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça guarda um retábulo maneirista que sobreviveu a séculos e a sismos. Na Igreja da Misericórdia, os azulejos setecentistas contam histórias bíblicas em azul-cobalto e branco. A Capela de São Sebastião, do século XVI, conserva um trono barroco desproporcionado para o espaço exíguo — é essa desproporção que a torna inesquecível.
Do lado de Afonsoeiro — antiga coutada régia doada por D. Afonso III a Afonso Anes em 1258 — a Igreja de Nossa Senhora da Conceição ergue-se entre pinhais que ainda perfumam o ar com resina nas manhãs de Verão.
Flamingos, sal e arroz
A Reserva Natural do Estuário do Tejo começa aqui. Zonas húmidas de importância internacional estendem-se entre sapais e salinas. O Trilho do Estuário tem onze quilómetros entre o cais e a zona de sapal. Flamingos-comuns alimentam-se nas águas rasas. Garças-reais pousam imóveis entre o junco. Em 2021 registou-se aqui a única nidificação bem-sucedida de flamingo-comum no país.
No Parque Urbano do Rio Tejo, passadiços de madeira e ciclovia acompanham a margem. Ao final do dia o sol desce sobre Lisboa num espectáculo que se vê melhor desta margem do que da outra.
Enguias, escabeche e um moscatel gelado
A mesa do Montijo sabe a rio e a lezíria. A sopa de amêijoas leva coentros e pão duro embebido no caldo. O ensopado de enguias cheira a salsa e a vinho branco. A tradição conserveira, que remonta ao século XIX, deixou herança nos petiscos de atum e sardinha em escabeche que se provam no mercado municipal, em funcionamento desde 1920.
Os bolinhos de azeite, servidos quentes, têm crosta que estala entre os dentes. As tortas de gila e os queques de Afonsoeiro completam a doçaria. Para beber, Moscatel de Setúbal gelado e cerveja Tagus. A Carne de Bravo do Ribatejo e a Maçã Riscadinha de Palmela aparecem nas feiras, sobretudo na de São Martinho, em Novembro.
Hidroaviões, guitarras e procissões sobre a água
Em 1920, do cais fluvial partiu o primeiro voo comercial de hidroavião em Portugal, rumo ao Cais do Sodré. A ligação fluvial a Lisboa continua o cordão umbilical da cidade. No primeiro domingo de Maio, a procissão de barcos em honra de Nossa Senhora da Graça desenha uma linha de devoção entre as duas margens. Nas Festas de São Pedro, em Junho, as marchas populares tomam as ruas com fitas coloridas e bailaricos nocturnos. Mestre António Chainho, guitarrista de fado nascido no Montijo, levou o som desta margem a palcos internacionais.
Os murais do projecto «Arte no Montijo» espalham-se pelo distrito industrial. A rota de street-art oferece contraponto contemporâneo ao casario pombalino. No Centro Interpretativo da Reserva Natural, telescópios apontados ao sapal permitem ver o que os olhos nus perdem — a penugem rosada de um flamingo, o mergulho súbito de uma garça.
Ao fim da tarde, no cais, a maré recua e deixa exposta uma faixa de lodo escuro onde pequenos caranguejos se movem lateralmente. O ar arrefece, o sal deposita-se nos lábios, e o último barco para Lisboa solta a amarra com um estalo seco de corda molhada. Quem fica ouve, durante uns segundos, o motor a afastar-se — e depois só o Tejo.