Artigo completo sobre Pegões: vinhas, charcos e memória da reforma agrária
Terra de lezíria entre Ribatejo e Alentejo onde a história recente moldou a paisagem vitivinícola
Ocultar artigo Ler artigo completo
O silvo agudo do comboio de mercadorias rasga o silêncio da lezíria ao amanhecer. Na várzea ainda envolta em nevoeiro baixo, os olivais desenham manchas escuras contra o cinzento da água parada nos charcos temporários — os pegões que deram nome a este território de fronteira entre Ribatejo e Alentejo. A luz chega devagar, primeiro dourada na copa dos salgueiros junto ao Rio Coina, depois esbatida nos campos de sequeiro onde a vinha cresce em linhas geométricas. O ar traz o cheiro a terra húmida e a sal distante do estuário.
Reforma agrária em terra de charcos
A história de Pegões acelera bruscamente em 1975. Depois do 25 de Abril, 380 novos agricultores chegam às terras expropriadas pela reforma agrária — 2.500 hectares do latifúndio dos viscondes da Asseca, 1.800 da Companhia das Lezírias e outros tantos da Casa de Abrantes. O que era silêncio de monocultura de trigo torna-se mosaico de parcelas de 5 a 15 hectares, primeiro em cooperativas, depois em explorações familiares. A memória romana deste território — o villae de Coina da Carta de Couto de 1385, os fragmentos de téguulas no Cabeço do Pinheiro — cruza-se com a memória recente de tratores Fiat 411 partilhados e assembleias na Casa do Povo. O topónimo, documentado desde 1334 como "Pegões da Lezíria" numa carta de doação de D. Afonso IV aos freires de Santarém, continua a fazer sentido: as depressões onde a água se acumula no Inverno marcam a paisagem tanto quanto as vinhas.
Pedra e talha dourada
O património edificado não grita. A Igreja Paroquial de São João Batista, reconstruída em 1726 depois do terramoto, guarda um retábulo barroco de 1743 em talha dourada que apanha a luz das velas em superfícies ondulantes — obra dos irmãos Ferreira de Setúbal. A Capela de Santo António, erguida em 1705 por um voto durante a peste, enche-se de romeiros a 13 de Junho — procissão seguida de arraial com música pimba e tabuleiros de chouriço assado na Rua Dr. Francisco Sanches. A estação ferroviária, inaugurada a 28 de Abril de 1861 com a chegada da Linha do Alentejo, encerrou a 1 de Fevereiro de 1989. Mantém o relógio de parede da Fábrica de Ovar e um núcleo museológico com o sinal de telegrafia usado na greve de 1934. Nos limites da Reserva Natural do Estuário do Tejo, o Moinho de Maré da Praça de São José, construído em 1601 para moer trigo com a maré do Coina, está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1982.
Açorda de savel e vinho de pequenos produtores
A cozinha reflecte a dupla herança ribatejana-alentejana. A açorda de savel do Coina — peixe que desce com a maré enchente — leva coentros e alho triturado no almofariz, servida em pão de testa de Alhos Vedros. O ensopado de borrego com hortelã fresca é cozido em tacho de barro negro de Molelos, assim como o feijão branco com ossos de porco que se come na matança, entre Janeiro e Março. O borrego de leite sai do forno de lenha do Canto do Sabor às 13h00 de domingo, com a pele estaladiça — é preciso encomendar com dois dias. Entre os doces, o pão de Deus de Pegões, inventado na padaria Ginja em 1958, tem massa fofa coberta de coco ralado, e o folar de ovos aparece na Páscoa com a receita das freiras da Madre de Deus de Lisboa. A freguesia integra a Região Vinícola da Península de Setúbal: 247 micro-explorações produzem tintos de Castelão e brancos de Fernão Pires, vinhos que se provam na Adega Cooperativa de Pegões (funda em 1955) mediante reserva — €3 por pessoa, inclui visita aos lagares de 1962. Nas bancas do mercado semanal de quarta-feira, na Praça da República, encontra-se Carne de Bravo do Ribatejo DOP e Maçã Riscadinha de Palmela DOP.
Observar aves na borda do estuário
O PR4 — Trilho dos Pegões serpenteia 4,8 quilómetros pela borda oriental da Reserva Natural do Estuário do Tejo. O percurso atravessa sapais e salicórnia, com observatórios de madeira onde se avistam flamingos entre Outubro e Março, pernilongos e colhereiros ao fim da tarde — trazer binóculos, o posto de aves fica a 2 km. A paisagem é plana, cortada por valas de drenagem abertas nos anos 1930 e galerias de salgueiro ao longo do Coina. O Centro de Interpretação da Reserva, instalado na antiga escola primária de 1952, expõe mapas de 1887 com a linha de costa anterior às obras do porto de Lisboa. Nas estradas rurais entre vinhas e olivais, o cicloturismo beneficia do relevo suave — apenas 65,7 metros de altitude no Alto do Pinheiro — e do trânsito escasso: 120 veículos/dia na EN378.
Ao crepúsculo, quando as últimas garças voltam aos ninhos nos eucaliptais da Quinta do Outeiro e o fumo dos fornos sobe vertical no ar parado, Pegões revela-se como território de acumulações lentas: água nos pegões de Inverno, talha dourada nas igrejas modestas, vinho em cubas de inox na cooperativa, memória da reforma agrária nas conversas à porta das adegas. O silvo do comboio volta a cortar o silêncio — desta vez mais distante, já sobre os sapais do estuário.