Artigo completo sobre Poceirão e Marateca: vinhas, sobreiros e silêncio
Entre o estuário do Sado e a planície alentejana, duas aldeias unidas por 28 mil hectares
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O primeiro sinal é o cheiro — não o da terra, ainda não, mas o da brisa que traz o sal do Sado misturado com o cheiro quente dos sobreiros. Estamos a menos de quarenta metros de altitude, numa planície que parece não ter fim, e o ar tem aquela transparência das manhãs de Setembro: seco, limpo, com aquela luz que faz cada folha de oliveira parecer cortada a tesoura. Ao longe, uma máquina agrícola que parece minúscula no meio de tanta vinha. Mais perto, o crepitar das folhas secas da videira sob os pés. É assim que se entra no Poceirão e na Marateca — não por uma porta grande, mas por ir desaparecendo aos poucos qualquer pressa.
28 mil hectares onde o silêncio é maior que as pessoas
São mais de 28 mil hectares — uma área maior que muitos concelhos inteiros — para 8811 pessoas. Dá trinta e tal habitantes por quilómetro quadrado, o que quer dizer que pode andar quilómetros sem ver ninguém. Os números dizem que há 2300 pessoas com mais de 65 anos e 1065 crianças. Traduzindo: há muita gente que conheceu os campos antes dos tratores, e poucos que vão ficar para os trabalhar.
"Poceirão" vem do latim pocerium, lugar de pastagem, e é isso que ainda é: chão aberto, rebanhos ao longe, ovelhas que parecen pontos brancos no meio do verde seco. "Marateca" ninguém sabe bem de onde vem, mas soa bem — e soa a terra. Juntaram-se oficialmente em 2013, mas quem cá vive sabe que a terra já os tinha juntado há muito.
Entre o Sado e a Arrábida
Por cá, o estuário do Sado não é coisa de ir ver num miradouro. É ali, a norte, e chega-se lá por caminhos de terra onde as garças te olham de esguelha como quem diz "o que é que vocês estão aqui a fazer?". Não precisa de binóculos — basta parar e esperar. Os flamingos aparecem, rosas contra o cinzento da lama, e fazem-se fotografias melhores que muitos cartões postais.
Para o sul, a Arrábida faz o favor de proteger disto tudo o mau tempo. Verões longos e secos, invernos que não castigam, uvas que têm tempo para pensar no que querem ser quando forem Moscatel.
O que se come e o que se bebe
Falem-se em provas de vinho lá na quinta, mas o que interessa é isto: o Moscatel de Setúbal não é para beber em copos grandes. É para copos pequenos, de preferência à sombra, enquanto se conversa sobre o tempo ou sobre o preço da uva. À volta do copo, a comida é a que sempre se fez: ensopado de borrego que o pão vai buscar, açorda de marisco porque o estuário está ali ao pé, sopa da panela que é reconforto em tigela. O Queijo de Azeitão chega à temperatura certa — corta-se o topo e faz-se pão descer no creme. O azeite põe-se em tudo, como deve ser. E no Outono aparecem as Maçãs Riscadinhas, essas que têm as riscas vermelhas e que fazem um estalo quando as mordes.
Quando chega a vindima
De Setembro a Outubro, é como se a planície acordasse. De repente há gente nas vinhas, caixas de plástico empilhadas, o som das tesouras. Participar na vindima é perceber porque é que há gente que vem cá para os alojamentos locais — não é para ver a paisagem de varanda, é para estar dentro dela. É para sentir a areia nos sapatos, o peso dos cachos na mão, a pele da uva quente de sol. É trabalho, mas é trabalho que se faz a conversar, com pausas para água ou para um café.
O fim do dia
Quando o sol começa a ir embora e o montado fica cor de ferrugem, há um gesto que resume o lugar: inclinar o copo de Moscatel contra a última luz e ver, através do dourado, a linha onde a vinha acaba e o estuário começa. É ali que a terra se entrega à água, sem drama, sem cerimónia — como quem diz "pronto, até amanhã".