Artigo completo sobre Abela: Entre Antas Neolíticas e Montado Alentejano
Freguesia serrana onde a arqueologia convive com tradições rurais e silêncio do sobro
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O vento atravessa o montado e traz o cheiro a terra queimada de Agosto. Sob os sobreiros, ainda se sente o calor que a pedra guardou do dia - um calor que faz estalar as bolotas caídas e que o porco preto, esperto, vai farejando entre os troncos. Aqui, na serra de Abela, onde o mar se afastou há milénios deixando apenas conchas fossilizadas no sambaqui da Pedra Branca, o silêncio é tão denso que se ouve o próprio sangue a pulsar nas têmporas quando se pára de caminhar.
A pedra que viu nascer a aldeia
A anta ergue-se entre sobreiros como quem ainda se lembra de quando aqui não havia nomes. Os matulões de granito, escuros de chuvas e musgo, formam uma câmara que ainda cheira a terra virgem quando se inclina para dentro. Os rapazes do lugar vêm cá aos fins-de-semana beber umas imperiais sentados em cima das pedras - dizem que lhes dá sorte nas raparigas de Santiago. Atravessando a ribeira de Tanganheira, a ponte romana mostra a marca das rodas que levavam o cereal para o porto: sulcos fundos na pedra mole, como rugas numa face muito velha.
No Castelo Velho, onde os muros se confundem com a serra, há morangos-do-mato a crescer entre as pedras. É ali que os miúdos vêm brincar às escondidas, voltando para casa com as meias esfarrapadas e os bolsos cheios de ceramicas islâmicas - fragmentos azuis que a terra vai cuspindo depois da chuva.
O cheiro dos domingos
Na Igreja Matriz, a talha dourada tem um cheiro específico - incenso antigo misturado com cera de vela e o hálito de séculos de missas. O sacristão, o Sr. António, ainda sobe as escadas rangentes todas as manhãs para dar corda ao relógio, como o pai dele fez e o avô. No relicário, o osso de São Santiago parece mais pequeno do que devia ser um osso, mas ninguém duvida - afinal, foi a rainha D. Maria II que mandou.
Na Capela da Conceição, as paredes suam no verão e gelam no inverno. Mas no primeiro domingo de maio, quando se abrem as portas para a romaria, o adro enche-se de um tão grande que se faz bola na garganta. As velhas vêm de luto, com os sapatinhos de corda na mão, e os homens arrastam as bancas de pinhões torrados e quentes que queimam os dedos.
O que a panela guarda
O ensopado do Zé Manel leva o dia todo a cozer no forno da padaria, depois que o pão já saiu. A vizinha avisa: "Hoje ele pôs mais pimentão do que o costume" - e toda a gente sabe que é porque a filha vem de Lisboa. A hortelã é do quintal, o vinho do ano passado ainda com borras no fundo da garrafa, e as batatas são as primeiras que a terra deu - tão novas que a pele sai toda com as unhas.
Na tasquinha do Largo, onde se entra pela porta lateral porque a frontal está entaipada há anos, a D. Rosa faz a açorda como a mãe lhe ensinou: pão de ontem, coentros do pé que cresce ao lado do chuveiro lá fora, e um fio de azeite tão verde que pica na garganta. O ovo é dos galinhas dela - "são felizes, pá, comem até milho moído".
Onde a terra acaba e o mar começa
O trilho dos Moinhos começa mesmo atrás da casa do Sr. Brito, onde o cão ladrão já não vê mas ainda ladra por hábito. O moinho, com as velas rotas e a porta trancada com arame, ainda tem dentro o cheiro da farinha que o avô do Brito moía - um cheiro que se agarra à roupa e que faz espirrar. Pelo caminho, os cistos estão sempre a espetar nos tornozelos, mas é no meio deles que se encontram os melhores cogumelos depois da primeira chuva de Outono.
As Lagoas são um mundo à parte - ali o vento muda de direção e traz o cheiro salgado que a terra esconde. Em Outubro, quando os flamingos chegam, é como se a aldeia respirasse diferente. As crianças deixam de ir à escola às escondidas para vir ver "os pássaros cor-de-rosa" e os pais deixam, porque também querem ver.
Quando a noite é feita de versos
No centro cultural, onde o chão de made range sempre no mesmo sítio, o cante ao desafio ainda se faz como quando o Padre Caeiro vinha cá de bicicleta anotar as cantigas. Os versos são os de sempre - sobre a terra, sobre o trabalho, sobre as mulheres - mas cada um os diz à sua maneira, com a garganta cansada de fumo e de vinho. O Silvestre, com a viola feita pelo sogro, ainda consegue fazer chorar a viúva do Zé Grande quando lhe canta "Adeus, ó que partiste".
Quando os reis chegam, é em Janeiro e o frio corta os ossos. Mas eles cantam mesmo assim, de porta em porta, com as vozes partidas e os pés gelados. No fim, levam um pedaço de bolo e um copo de aguardente - "pra aquecer", dizem, embora já estejam a tremer de tanto beber.
A tarde cai e o sino da igreja bate três vezes, como faz todas as tardes desde que se foi o Sr. António da sacristia. Nas cozinhas, começam a acender-se os fogões e o cheiro a lenha molhada mistura-se com o das cebolas a refogar. É este o momento em que Abela deixa de ser um nome no mapa e se torna um sabor na boca, uma dor nos rins de quem a trabalhou, uma saudade que não se explica - só se sente quando se vai embora e se leva a terra nos sapatos.