Artigo completo sobre Santiago do Cacém: cal branca, montado e ruínas romanas
Entre castelo medieval e lagoa, três aldeias fundiram-se numa freguesia de oito mil almas
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O sino bate às onze e o eco rola pela encosta abaixo, ressaltando nas muralhas do castelo antes de se perder entre os telhados de Santiago do Cacém. Lá em cima, onde a cumeada calcária da Serra de Santiago rasga o horizonte, o vento empurra o cheiro quente da esteva misturado com o perfume mais suave dos sobreiros centenários — há tantos aqui que o concelho regista uma das maiores concentrações do país. Cá em baixo, na rua estreita que desce do Largo do Município, a cal branca das fachadas absorve a luz da manhã com uma intensidade que obriga a semicerrar os olhos. É neste declive, entre o granito das muralhas e o montado que se estende para sul, que três aldeias se fundiram em 2013 numa só freguesia - 7 892 pessoas que nem sempre se cruzam, espalhadas por mais de duzentos quilómetros quadrados onde ainda se encontram moinhos de água em funcionamento e olivais onde se planta em socalcos que seguram a terra quando chove de mais.
O castelo que abriu o Alentejo
O Castelo de Santiago do Cacém é anterior à nacionalidade: erguido no século VIII sobre fundações que já eram muçulmanas — o próprio nome Cacém descende de Qaççim -, foi o primeiro ponto de paragem da Ordem de Santiago após a conquista do Alentejo. Quem sobe a rampa de acesso sente o calor acumulado na pedra sob a palma da mão, e ao chegar ao adarve depara-se com um panorama que explica toda a estratégia: a serra a nordeste, o litoral a poente, a planície cerealífera a perder de vista para sul. No interior do recinto, a estação arqueológica revela camadas sobrepostas — cerâmica islâmica, silhares romanos, alvenaria quinhentista — como se o solo fosse um livro aberto. D. Afonso III concedeu foral à vila em 1255, e desse tempo ficou o padroeiro, S. Tiago, cuja romaria a 25 de Julho ainda enche de procissão, feira e música tradicional as ruas que circundam a Igreja Matriz - construção onde o estuque recente esconde o que restou do goticoe do manuelino depois do terramoto de 1858.
Três aldeias, três temperamentos
Descendo para leste, Santa Cruz guarda a sua personalidade na Igreja onde o teto de madeira ainda mostra o buraco feito pela granada que caiu em 1847 sem explodir. A Festa de 3 de Maio junta gente que se conhece de escola, antiga ou nova - quando o cortejo florido percorre o adro antes da missa campal, os mais velhos ainda se lembram quando se levava o gado para o campo através da porta que dava para a Ribeira de Santiago. Mais adiante, no sopé da serra, São Bartolomeu da Serra conserva um ritmo mais lento: a Igreja onde o padre António marcou baptismos durante cinquenta anos, o Moinho de Vento que o Joaquim ainda faz rodar aos domingos para mostrar aos netos - e onde se guardam os caretos de Inverno que saem apenas uma vez por ano, quando o frio aperta e se justifica beber um aguardente no largo. Foi em São Bartolomeu que Manuel da Silva Gaio, etnógrafo nascido no lugar do Meio, passou décadas a recolher cantigas ao desafio - as mesmas que ainda se ouvem quando duas vozes se cruzam nos olivais durante a vindima, sobre o ruído seco das varas a bater nos ramos.
Montado, lagoa e trilhos entre moinhos
O Trilho dos Moinhos — oito quilómetros entre Santiago e São Bartolomeu — atravessa olivais centenários e passa por moinhos abandonados cujas velas de pano desapareceram quando os netos do moleiro emigraram para Lisboa. O caminho sobe e desce entre montado de sobro e azinheira, e no Inverno a Ribeira de São Bartolomeu enche-se de água que forma pequenas cascatas temporárias - um rumor que se ouve antes de se ver. Para quem prefere a planura, a Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha abre-se a poente: lagoas costeiras onde, entre Outubro e Fevereiro, garças, flamingos e outras espécies se concentram em números que justificam os doze quilómetros da Rota da Lagoa. Há quem diga que a lagoa de Santo André chegou a servir como porto interior - antes de a barra de Sines se formar e fechar o acesso ao mar, os barcos subiam pela ribeira dentro. Na serra, outro percurso — a Rota do Petróglifo, cinco quilómetros — conduz a gravuras rupestres que precedem em milénios qualquer castelo ou ermida. No entanto, o mais procurado é o trilho das Pias — onde a água escavou piscinas naturais na rocha, e onde se vai aos domingos de Verão quando o calor torna insuportável a praia de areia preta.
À mesa com o Alentejo dentro do prato
No Mercado Municipal, aos sábados, a bancada de queijos exibe rodas de Queijo de Serpa com a casca alaranjada e a pasta semilíquida que escorre ao corte - mas é o queijo fresco de cabra, embrulhado em folhas de cortiça, que desaparece primeiro. Ao lado, peças de Carne de Porco Alentejano e mantas de Borrego do Baixo Alentejo esperam destino. A açorda alentejana — de bacalhau ou de tomate, conforme a estação — chega à mesa em terrina de barro com o pão embebido até ao tutano, o azeite a brilhar à superfície, um ovo escalfado ao centro. As migas com carne de porco têm a textura densa de quem amassou o pão com gordura quente, e o ensopado de borrego traz o travo do louro e do coentro fresco - ervas que crescem no quintal atrás da casa. Nos doces, cada aldeia reivindica o seu: tibornas de Santiago, queijadas de Santa Cruz, bolo de mel de São Bartolomeu - mas são os bolinhos de amor, vendidos na padaria central depois das nove da manhã, que se comem ainda quentes, a queimar a língua. Para acompanhar, os tintos de casta Periquita e os brancos de Moscatel da região da Península de Setúbal — provam-se na Adega Cooperativa de Santiago, onde a madeira das barricas impregna o ar com um aroma adocicado e tânico em simultâneo.
O som que fica
Ao fim da tarde, quando a luz rasante transforma a cal das fachadas num tom de âmbar e o vento abranda na serra, há um instante em que o único som é o ranger de uma portada de madeira velha algures na encosta do castelo. Depois, lá ao fundo, duas vozes cruzam-se numa cantiga ao desafio — verso contra verso, rima contra rima, como se Gaio ainda andasse por ali a gravar num cassete que hoje ninguém tem leitor para ouvir. É esse duelo cantado, frágil e teimoso, que se cola à memória muito depois de se ter deixado Santiago do Cacém para trás.