Artigo completo sobre Quinta do Conde: entre vinhas antigas e subúrbio jovem
Uma freguesia que cresceu junto à N10 e mantém o cheiro a terra entre as moradias de Sesimbra
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O autocarro pára junto à rotunda e entra pela porta aberta um cheiro que não combina com as lojas de fraldas e os electricistas — é terra de horta, fresca como a que a tua avó trazia no cabaz quando vinha do campo. Mistura-se com o asfalto quente e, se o vento está de serviço, traz uma pitada de matagal lá da Arrábida. Dizem que vivem aqui quase trinta mil pessoas em catorze quilómetros quadrados; parece mentira, mas há ruas onde o silêncio é tão grosso que dá para ouvir o relógio do vizinho atrasado.
O nome de um conde, a estrada de um país
O sítio chama-se Quinta do Conde porque aqui houve uma quinta de um conde — simples como um prato de sopa. Vinhas e hortas ocupavam o terreno até a Nacional 10 chegar, lá para os anos 20, e abrir uma ferida larga entre Lisboa e o Sul. Aí o burgo cresceu: primeiro devagarinho, depois aos molhos nos anos 80, quando quem não podia com as rendas da capital descobriu que aqui se comprava casa com quintal e ainda sobrava dinheiro para o cartão do Continente. Em 97 separaram-se de Alfarim, como quem sai de casa dos pais: trouxeram os móveis e a conta bancária e fundaram freguesia.
Censos dizem que há tanto miúdo como velho — diferença de uns cento e poucos. Traduzindo: os parques têm bichos, os bancos têm conversa.
Entre o asfalto e a Arrábida
A serra fica ali ao lado, tão perto que parece que a qualquer momento se vai sentar à mesa. Quando o dia está limpo, vê-se o recorte dela como se fosse um cartão-postal posto no parapeito da varanda. Ir à Arrábida aqui não é programa de domingo — é como ir ao café da esquina: sais à noite, fazes a volta e voltas a tempo de jantar. Em Agosto, quando o termómetro já arrebenta os trinta antes das dez, é o sítio onde o ar ainda sabe a azul.
Entre as casas sobraram pedaços de terra que parecem esquecidos: uma horta encostada a um muro, uma figueira que cai para cima do passeio, uma videira que decidiu subir à pergunta como quem sobe à tromba do autocarro. A freguesia continua dentro da região dos vinhos de Setúbal — e isso nota-se: há cheiro a uva nos fins-de-tarde de setembro e sempre um vizinho que se lembra de fazer umas garrafas para a mesa.
Queijo de Azeitão e o mapa dos sabores
Azeitão fica a três passos, por isso o queijo é como o pão: aparece em todas as mesas. É pequeno, mole, e quando o cortas ao meio escorre como se estivesse a chorar por saudades. Pão escuro, um fio de azeite e um copo de tinto da terra — nem precisas de travete; o teu joelho serve de tábua. O segredo é o cardo, dizem os da serra; o segredo é comer devagar, diz eu.
Uma periferia que se lê ao contrário
Não é só dormitório. Claro que há carrinhas a sair às sete para Lisboa, mas também há vida durante o dia: miúdos com mochila atrasada, velhos com o cão que pára em cada árvore, a merceira que ainda pesa o queijo na balança de pratos. Há vinte e oito sítios para ficar — nada de mega-resorts, mas quartos arranjados, casas de férias que alugar não custa mais que um jantar para quatro no Bairro Alto. Vens de carro, estacionas sem cirurgia, e em meia hora estás em Setúbal; em quarenta, em Lisboa — contando com o engarrafamento de queixa, que é como quem conta com a sardinha no pão de verão.
O som que fica
Quando a luz cai, ouve-se o que não sai nos folhetos: o ferro do portão a ranger, o sapato a arrastar no mosaico, a voz lá de dentro — “Vem, que a sopa está fria!” É a cena que se repete desde que o lugar era só umas casas ao lado da estrada. E se prestares atenção, ainda ouves a tesoura a podar a vinha: alguém insiste em fazê-lo todos os Invernos, porque “isto já se fazia antes de haver nomes para as freguesias”.