Artigo completo sobre Ázere: onde o granito encontra a Peneda
Freguesia de 207 habitantes entre vinhas de socalcos e caminhos de Santiago em pleno Parque Nacional
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O granito das casas ainda arde quando o ar refresca. Em Ázere, a luz da tarre descai rasgada pelos vales que vêm da Peneda, lançando sombras compridas sobre os muros de xisto que separam os campos. Corre água lá em baixo, sempre a mesma, e o sino da igreja bate as horas com um som que se perde nas brenhas. Duzentos e sete habitantes partem estes três quilómetros quadrados onde as vinhas se agarram a socalcos tão estreitos que um pé mal posto as deita abaixo.
Entre a pedra e o verde
Estamos dentro do Parque Nacional. O verde não decora - devora. Entranha-se nas paredes, rebenta pelas telhas, tapa os caminhos que ligam as aldeias. Dois monumentos classificados - um Monumento Nacional, outro de Interesse Público - agarram a memória a esta paisagem onde o construído e o selvagem se disputam a cada metro. O parque não é uma linha no mapa: é o silêncio espesso ao amanhecer, é o ar que se bebe molhado, é a luz que se fura entre os carvalhais.
O Caminho de Santiago passa aqui. Os peregrinos param nas fontes, enchem cantis, deixam os pés descansar à sombra. Levam na bagagem o cheiro da terra batida e o sabor de um lugar onde se sobe e se desce sem descanso.
O que o monte dá
Cachena da Peneda, vacas pequenas como burros, perna fina e chifre grande. Pastam onde nem o medo vai. A carne tem o sabor das urzes e dos toxos - mastiga-se devagar, saboreia-se o monte. Quando se mata um, é festa. Assa-se no forno a lenha, com batatas mal descascadas e sal grosso. Nos fumados, chouriças e toucinho pende das traves, a ganhar fumo lento que os torna dourados por fora e vermelhos por dentro.
Quando os sinos dobram
Três vezes ao ano os sinos tocam mais depressa. Nossa Senhora da Lapa, Nossa Senhora da Porta, Nossa Senhora da Peneda. A da Peneda traz gente de fora, enche as estradas de carros mal estacionados. As outras são nossas - quem vem, vem de casa ou da terra onde nasceu. O sino chama-os todos, dos campos e das cidades, e eles vêm, subindo caminhos que os pés não esqueceram.
Cinco casas recebem quem procura o parque sem confusão. Chega-se, deixa-se o carro, vai-se a pé. Sessenta e cinco almas por quilómetro quadrado - espaço de sobra, mas também silêncio a mais. Dezasseis crianças partem a escola com setenta e sete velhos que já viram estas montanhas todas mudadas de cor.
Quando a noite cai e o verde se torna preto, a água continua a sua cantiga. Ázere não tem pressa - respira no compasso da corrente, lenta e para sempre.