Artigo completo sobre Cendufe: onde a serra dita o ritmo da vida
Freguesia às portas do Gerês vive entre pastagens de gado Cachena e peregrinos de Santiago
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O som da água chega antes da vista. Corre entre pedras de granito escuro, musgosas nas margens, num vale onde a luz entra oblíqua entre carvalhos e castanheiros. Cendufe respira ao ritmo lento da serra — 308 almas distribuídas por 315 hectares que sobem até aos 292 metros. Altitude suficiente para que o ar traga sempre uma frescura húmida, mesmo em pleno Agosto, quando o resto do país derrete.
No limiar do Parque
A freguesia vive encostada ao Gerês, essa massa verde que ocupa o horizonte a nascente e dita o calendário local. Aqui, a natureza não é cenário — é quem manda. Os caminhos que sobem para a serra cruzam pastagens onde o gado Cachena, raça autóctone de pelagem escura e chifres compridos como o inverno, pasta em liberdade. A carne tem DOP — Cachena da Peneda — e um sabor que lembra o queijo da serra: quanto mais magra, mais cara.
As seis moradias de alojamento local não são acaso: Cendufe tornou-se paragem obrigatória no Caminho de Santiago pela costa. Ao final da tarde, vêem-se peregrinos com botas de lama e cara de quem já não sente as pernas, sentados no muro do café. Pedem uma mini e um café, o essencial para enfrentar o que vem aí no dia seguinte.
Devoções que movem a serra
A fé aqui funciona como o relógio de sol: marca os tempos quando há sol, e quando não há, também. A Festa de Nossa Senhora da Lapa, as Festas de Nossa Senhora da Porta e, sobretudo, a Romaria da Peneda — esta última é como o Vilarejo Global da religiosidade minhota. Durante esses dias, Cendufe multiplica-se: os 308 habitantes fixos recebem centenas de peregrinos, os adros enchem-se de vozes, os fogareiros acendem-se nos largos e o café fica sem gelo antes das dez da manhã.
Fora desses picos festivos, a freguesia regressa ao seu ritmo. As 46 crianças ainda jogam à bola no recreio da escola — sim, ainda há escola, apesar de tudo. Os 82 idosos conhecem cada pedra, cada curva do rio, cada família. A densidade populacional — 97 habitantes por quilómetro quadrado — significa que ainda há vizinhança, mas também silêncio suficiente para se ouvir o vento nos pinheiros e a TV do vizinho, se ele tiver a janela aberta.
Vinhas na encosta
A região dos Vinhos Verdes estende-se até aqui, e as vinhas sobem em socalcos discretos nas encostas mais soalheiras. O granito retém o calor do dia e devolve-o lentamente à noite, enquanto a humidade da serra tempera a acidez das uvas. Não há adegas monumentais, mas há quem ainda pise a vindima em lagares de pedra. O cheiro do mosto a fermentar lembra os dias da escola primária — quando se vinha da vindima com os pés roxos e a mãe mandava tirar os sapatos lá fora.
Quando a noite cai sobre Cendufe, o céu abre-se sem competição. Longe das luzes costeiras, as constelações desenham-se nítidas sobre o perfil negro da serra. Ao longe, o ladrar de um cão. Mais perto, o murmúrio persistente da água que nunca pára — e que lembra, sem pressa, que a montanha tem o seu próprio pulso.