Artigo completo sobre Oliveira: entre o sino de Santa Maria e o azeite do Vez
Freguesia de Arcos de Valdevez onde a romaria da Peneda percorre 12 km e a cachena pasta livre
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O sino da Igreja de Santa Maria toca duas vezes, o som grave atravessa o vale e bate nas encostas do Vez antes de se dissolver no ar húmido da manhã. Nas fachadas de granito, os ramos de oliveira secos ainda pendem dos pregos desde a última romaria, oscilando ao vento que desce da Peneda. Oliveira acorda devagar, ao ritmo de quem sabe que a pressa não pertence a este território onde as oliveiras centenárias continuam a ser colhidas, uma a uma, para o azeite que tempera o caldo verde.
Pedra, água e fé
A freguesia cresce em torno da sua igreja matriz desde pelo menos o século XVI, quando o culto a Santa Maria organizava a vida colectiva. O edifício conserva traços barrocos e neoclássicos, uma sobriedade rural que não pede ornamento excessivo. Mais acima, a capela de Nossa Senhora da Lapa ergue-se num ponto elevado, destino de procissões que sobem entre muros de pedra e soutos onde o chão range de ouriços. Em Agosto, a Festa de Nossa Senhora da Lapa enche o adro de vozes e de fumo de sardinhas assadas; no Verão, as Festas de Nossa Senhora da Porta acendem o bailarico e a procissão luminária que serpenteia pelas ruas estreitas. Mas é em Setembro, na Romaria a Nossa Senhora da Peneda, que a devoção ganha corpo físico: doze quilómetros a pé por caminhos históricos, entre granito e bosques de carvalho-alvarinho, com cânticos que ecoam no silêncio da serra.
Carne cachena e vinho verde
O bitoque que chega à mesa da tasquinha local é de Carne Cachena da Peneda DOP, gado criado em liberdade nos montes que rodeiam a freguesia. A carne tem textura firme, sabor intenso, memória de pastagens altas. Os rojões à moda do Minho vêm acompanhados de sarrabulho escuro e fumegante, o pão de milho é denso e ligeiramente doce. O bolo de oliveira — massa aromatizada com folhas da árvore que dá nome ao lugar e mel — fecha a refeição com um travo amargo e perfumado que não se esquece. O vinho verde da sub-região desce fácil, ligeiramente gasoso, a contrastar com o peso da carne estufada.
No coração do Parque Nacional
A noventa e três metros de altitude, Oliveira respira pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês. O rio Vez serpenteia o vale, criando praias fluviais de águas cristalinas como a de Parada do Vez, onde se faz paddle-board entre pedras redondas pelo tempo. O trilho circular da Oliveira-Portela liga a igreja matriz à capela da Lapa, oferecendo vistas sobre campos de milho e oliveiras que se estendem até ao rio. Os marcos de arcos de pedra ainda delimitam propriedades medievais, testemunhos de um tempo em que a terra se media a palmos. O Caminho do Norte de Santiago atravessa a freguesia, pisado por peregrinos que seguem entre espigueiros de granito e muros cobertos de musgo.
À noite, nas casas de pedra recuperadas que acolhem quatro alojamentos, o céu escuro classifica-se como Zona Escura do parque. As estrelas acumulam-se sobre o vale, tantas que parecem pesar no ar. E ao fundo, sempre, o murmúrio constante do Vez — água sobre pedra, som que não se cala.