Artigo completo sobre Padroso: sino que toca sozinho e dança de bastões
Capela da Lapa, romaria centenária e caminhos de Santiago numa aldeia de xisto a 544 metros
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O sino da capela da Lapa toca sozinho na véspera da romaria — ou assim dizem os mais velhos, sentados nos bancos de granito do adro. A 544 metros de altitude, Padroso espalha-se pela encosta nordeste do Soajo como um punhado de casas de xisto que se agarram ao declive. O vento sobe do vale do Lima trazendo o cheiro a urze molhada e, ao longe, o murmúrio do ribeiro que corre entre poços de água tão transparente que se vê o fundo de pedra.
Pedra que guarda memória
A Capela de Nossa Senhora da Lapa ergue-se no outeiro desde o século XVII. É só subir as escadas de pedra que se vê o campanário a cortar o céu — e se estiver cansado, sente-se no muro, que a vista compensa. As setas amarelas do Caminho de Santiago passam aqui; os peregrinos param para beber água na fonte e rezem o que têm a rezar. A imagem da Virgem veio de Galiza, trazida por emigrantes que juraram que ela lhes tinha safado a vida na travessia. Hoje em dia, quem precisa de safamento é o padre — são 197 almas na freguesia, mas na romaria de agosto enchem-se as bancadas. É no segundo fim-de-semana do mês, não se esqueça: há fogueiras, bailarico e a "Dança dos Homens" com os seus bastões a marcar o compasso no adro. É bonito de ver, mas se quiser lugar sentado, chegue cedo. Ou leve um banco de casa, ninguém se importa.
A Igreja Matriz de São Pedro reconstruíram-na depois do incêndio de 1926. O António José da Silva, pedreiro de Soajo, disse que queria fazer melhor que a antiga — e até hoje há quem discuta se conseguiu. A talha dourada é fina, mas o que vale mesmo a pena são os azulejos: são setecentistas, contam histórias da Bíblia, e se olhar com atenção vai reparar que o São Pedro tem cara de quem já bebeu um copo a mais. No adro há dois cruzeiros manuelinos; o da esquerda tem uma cara esculpida que os miúdos dizem ser do "cara-que-assusta". Não assusta ninguém, mas é tradição.
Na ermida de São João, no lugar de Vilar, abrem-na só a 24 de junho. É noite de fogueira, saltam-se as brasas, e se alguém se queimar leva-se logo uma medalha de São João — é fé, mas também é curativo. Leve um garrafão de vinho, que se bebe antes e depois dos saltos.
Carne de montanha e broa de forno comunitário
Se lhe apetecer comer bem, vá à tasquinha da Junta — abre só aos fins-de-semana, mas avise antes. Peça carne cachena, vai no bitoque ou no ensopado, conforme o tempo. A carne é escura, de vaca que andou pelas serras da Peneda, e não é mito: sabe a mato. Vai com batatas "ao murro" e um copo de Loureiro da Casa Nova. Se lhe sobrar espaço, experimente a broa do forno comunitário: crosta grossa, miolo denso, parte-se com a mão e come-se com requeijão. O forno ainda vai duas vezes por mês, depende da lenha. Nas festas há doce de abóbora com amêndoa — leva um tupperware, que a vizinha da Dona Antónia faz de sobra. A aguardente é caseira, destilada em alambique de cobre; oferece-se na noite de Reis, quando os rapazes cantam as janeiras. Se lhe derem um copo, beba. Se não gostar, finja que gosta. É educação.
Trilhos entre carvalhais e orquídeas
O trilho de Padroso faz oito quilómetros, começa na capela da Lapa e dá uma volta pela encosta. Leve água, porque não há café no meio do caminho — só o ribeiro, e isso é água de verdade. No miradouro do Outeiro a vista é boa para tirar uma foto, mas cuidado com o vento: já levei uma chapada na cara que me deixou a cara de São Lourenço. Pelos carvalhais ouvem-se corços, e se tiver sorte até vê um. Se não tiver, ouça o silêncio — também serve.
Nos lameiros há orquídeas silvestres, mas não as leve. Já tentaram, não aguentam em vaso. O ribeiro faz poços de água gelada; dá para molhar os pés, mas se entrar de cabeça lembre-se: é montanha, a água é fria como a justiça. Três quilómetros abaixo há as piscinas fluviais de Sequeiros — são públicas, há balneários, e no verão pôe-se toalha na relva. Leva-se o mesmo cuidado que na praia: não deixe o lixo, que depois somos nós que o vamos buscar.
Ao fim do dia, se ainda tiver pernas, suba ao Penedo da Cabra Montesa. Dizem que os noivos que sobem juntos ficam fiéis como a pedra. Não garanto que funcione, mas a vista é de fiar. Lá em baixo, o fumo sobe das chaminés, cheira a lenha de carvalho e às papas de sarrabulho que a vizinha do Sr. Joaquim está a fazer. Padroso não tem muito, mas tem o que importa: pedra que aguenta, gente que fica, e um sino que toca sozinho — ou assim dizem.