Artigo completo sobre Rio de Moinhos: pedra, água e moinhos na Peneda
Freguesia de Arcos de Valdevez onde a força hídrica ainda move rodas centenárias de moinho
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O ranger das pedras ainda se ouve se passares lá por volta das sete, antes do café abrir. Na margem do ribeiro — sim, é um ribeiro, mas aqui tratam-no por rio — as rodas de madeira continuam a dar voltas, ora presas pela erva, ora empurradas pela água que desce da Peneda. No Outeiro acende-se o forno de lenha para a broa: três tabuas de carvalho, meia dúzia de bifes de masa e a conversa vai correndo enquanto a fumoira faz o trabalho dela. A receita é a mesma da Festa do Pão: farinha do moinho, água do ribeiro, sal e tempo — o ingrediente que ninguém mete no papel.
Quando a água mandava no território
Dizem que havia 23 rodas a trabalhar; hoje sobreviveram cinco, mas chegam para perceber como era. A ponte medieval — um arco só, sem parapeto — servia para os peregrinos fugirem à estrada romana, hoje serve para os miúdos saltarem para a poca no verão. O Trilho dos Moinhos faz-se bem em duas horas, três se parares para tirar fotos ou para comer uns figos à sombra. Leva água: o bar do João só abre à tarde e é segunda-feira.
Igreja, capela e romarias
A Igreja Matriz tem um retábulo lindo, mas o que vale mesmo é o silêncio lá dentro — aquele silêncio de pedra que faz a pessoa baixar a voz sem saber porquê. Em maio sobe-se à Lapa com cânticos e guarda-chuva; em agosto desce-se ao Vez de barco, com a bota de borracha e um farnel de broa com chouriço. A procissão fluvial é o dia em que o padre se arrisca a molhar os pés e ninguém lhe tira a razão.
Cachena, broa e vinho verde
A Cachena é boa, mas é pequena: come-se duas, três se estiveres de muita fome. O bitoque dela vem com batata com casca e um ovo estrelado por cima — prato de homem que passou a manhã no mato. O bacalhau vai ao forno de lenha até a pele fazer bolhinhas; rega-se com azeite novo que ainda arde na garganta. O vinho verde é Loureiro, serve-se à temperatura da adega (leia-se: frio que nem pedra) e corta a gordura como navalha de barbeiro.
O rio que ainda corre livre
Do Miradouro do Cruzeiro vê-se o vale todo em camadas: primeiro o pinhal, depois o lameiro, depois o granito nu. Há lagoas junto à ponte onde se pode mergulhar — água de cortar o fôlego, mas depois acostuma. Leva chinelos: o fundo é pedra lisa e há crianças que já partiram o calcanhar. No fim de semana após o 8 de setembro a estratuja enche-se de carros estacionados em segunda fila: é romaria da Peneda e toda a gente vai a pé, até quem tem joanetes.
Maria Albertina ainda tece no tear da cooperativa; se lhe perguntares mostra-te como se faz a conta da urdidura. O som da lançadeira é o mesmo que ouvia a avó dela — e se fechares os olhos dá para imaginar a aldeia com o dobro das casas e metade do silêncio. Hoje são 433 almas, mas basta um Domingo de sol para parecerem menos: uns estão no café, outros na horta, o resto já foi ao cemitério.