Arcos de Valdevez VII
Pedro Nuno Caetano · CC BY 2.0
Viana do Castelo · CULTURA

Soajo: Espigueiros de Granito e Memória de Vila

Aldeia serrana com 24 espigueiros na Eira do Penedo e história de concelho autónomo até 1836

670 hab.
336.7 m alt.

O que ver e fazer em Soajo

Património classificado

  • MNPelourinho de Soajo
  • IIPEspigueiros de Soajo

Produtos com Denominação de Origem

Áreas protegidas

Festas e romarias em Arcos de Valdevez

Agosto
Festa de Nossa Senhora da Lapa Romaria de S. Domingos | Raiva – Castelo de Paiva festa popular
Setembro
Festas de Nossa Senhora da Porta Durante o mês de Setembro, realizam-se as seguintes Romarias e Festas Populares em Portugal:Finais de agosto a 9 de setembro festa popular
Romaria a Nossa Senhora da Peneda Durante o mês de Setembro, realizam-se as seguintes Romarias e Festas Populares em Portugal:Finais de agosto a 9 de setembro romaria
ARTIGO

Artigo completo sobre Soajo: Espigueiros de Granito e Memória de Vila

Aldeia serrana com 24 espigueiros na Eira do Penedo e história de concelho autónomo até 1836

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O granito escurece à medida que a tarde avança sobre a Eira do Penedo. Vinte e quatro espigueiros erguem-se na planície de lajes, estruturas sólidas assentes em pilares de pedra que os afastam do chão húmido. O vento atravessa as frestas entre as tábuas, levando o som seco das folhas de milho que ainda secam no interior de alguns. Ao longe, o perfil recortado da Serra do Soajo desenha-se contra o céu, enquanto o frio da altitude começa a descer pelos vales.

Esta aldeia, que foi vila e concelho autónomo até 1836 — quando a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira a anexou a Arcos de Valdevez — mantém uma memória antiga inscrita na paisagem. Durante séculos, os habitantes de Soajo tiveram o privilégio singular de oferecer anualmente cinco cães sabujos à Coroa — uma obrigação que atestava o seu estatuto especial, confirmado no foral manuelino de 1514. Ainda hoje, no Café Central, quando o Joaquim de Sá, de 87 anos, fala do "concelho", usa o presente do indicativo como se a autonomia não tivesse sido extinta há 188 anos.

Pedra sobre pedra, milho sobre milho

Espalhados pela freguesia existem 142 espigueiros, mas é na Eira do Penedo que a concentração atinge o seu ponto máximo. Erguidos sobre pilares que impedem a humidade e os roedores, estes celeiros de granito guardam o milho seco e protegem-no da chuva. Cada família tinha o seu, identificado por cruzes ou símbolos gravados na pedra — o da família Alves ainda ostenta uma cruz latina do século XVIII, enquanto o dos Oliveira tem as iniciais "A.O. 1876" esculpidas no lintel. Ao pôr do sol, quando a luz rasante incide sobre o granito, os espigueiros ganham uma tonalidade dourada que contrasta com a sombra alongada que projectam sobre as lajes.

A Ponte da Ladeira, com 13 metros de comprimento e arco de 8, atravessa o Rio Taboal, afluente do Castro Laboreiro. A pedra gasta pelos séculos revela a passagem contínua de carros de bois, rebanhos e viajantes — na Pedra da Estrada, a 200 metros, ainda se vêem as marcas das rodas de ferro dos arrieiros que transportavam sal de Espanha. Mais acima, o Miradouro de Cunhas estende uma plataforma de vidro sobre o vazio, oferecendo uma vista desimpedida sobre o Vale do Lima. No Miradouro de Tibo, a 940 metros de altitude, a vista alcança as serras Amarela, Peneda, Gerês e o Xurés galego, e em dias de boa visibilidade, o território espanhol desenha-se no horizonte.

O que se come, o que se bebe

Nas tasquinhas que abrem durante a Feira de Artes e Ofícios Tradicionais, no último fim de semana de julho, servem-se petiscos acompanhados de vinho verde da sub-região Lima — o Quinta do Soajo, da adega cooperativa de Arcos, produz 120 mil garrafas anuais do seu loureiro. O arroz de sarrabulho com rojões, temperado com colorau do Gerês, chega à mesa fumegante no restaurante O Espigueiro, enquanto os enchidos regionais — salpicão, alheira de mirandesa e butelo — pendem de ganchos sobre as bancas. O cabrito assado, cozinhado durante quatro horas no forno a lenha da Tasquinha da Ti Rosa, desprende um aroma que se mistura ao cheiro a carvalho das lareiras. A Carne Cachena da Peneda, protegida por DOP desde 1996, provém das 450 vacas de pequeno porte que pastam nos baldios comunitários — cada animal dá nome ao proprietário, como a "Malhada" do Sr. António ou a "Pintadinha" da D. Fernanda. O pão-de-ló do Soajo, denso e húmido, com receita que a Dona Amélia guarda desde 1952, fecha as refeições com a doçura justa que pede outro copo de vinho.

Trilhos entre o granito e a água

Integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês desde 1971, a freguesia estende-se pela Serra do Soajo até aos 1.300 metros de altitude. O trilho circular do Poço das Mantas, com apenas 1,2 quilómetros, serpenteia entre muros de pedra seca e carvalhos centenários antes de chegar à lagoa natural onde a água, a 5ºC durante todo o ano, reflete o verde escuro da vegetação. O percurso até à Lagoa dos Druidas, partindo de Tibo, exige cinco quilómetros de caminhada exigente por pastagens de altitude onde os garranos, 280 animais em liberdade geridos pela Associação de Criadores de Garranos da Peneda, pastam em liberdade. Nas zonas mais altas, o silêncio só é quebrado pelo grito ocasional de uma águia de Bonelli — nidificam aqui três casais, o limite ocidental da espécie em Portugal — ou pelo vento que agita os fetos secos.

Vozes que permanecem

As Fiadeiras do Soajo — sete mulheres entre 45 e 78 anos — mantêm viva a tradição dos cantares ao desafio, respondendo em versos improvisados que recuperam a memória oral da serra. Na Casa do Povo, às terças-feiras, ensaiam modas como "A Serra do Soajo" e "O Riosinho do Penedo", repertório que a D. Albertina, de 78 anos, aprendeu com a avó nascida em 1870. Durante a Festa de Nossa Senhora da Lapa, no primeiro domingo de agosto, os ranchos folclóricos descem à praça, enquanto a Romaria à Nossa Senhora da Peneda, a 28 de setembro, reúne 800 peregrinos que sobem a pé pelo caminho antigo — 12 quilómetros desde Soajo, passando pelo Portela de Leonte. O Caminho de Santiago do Norte, que entrou na rede oficial em 2016, atravessa a aldeia na etapa entre Ponte de Lima e Valença, trazendo caminhantes que param para encher as cantinas na fonte da Praça, construída em 1897 com os 500 réis doados por cada uma das 84 famílias.

A população reduziu-se a 670 habitantes, com 356 idosos e apenas 36 crianças — os últimos dados do INE de 2021 mostram que desde 1981 perdeu 73% da população — mas o sistema comunitário de gestão dos baldios — o "compartes" que funciona desde o século XVI — ainda organiza 1.800 hectares de pastos comuns. O rebanho coletivo de 1.200 ovelhas e 180 vacas cachena pasta nos terrenos comuns segundo o "couto" estabelecido: cada animal paga 2,50 euros por mês à Junta de Baldios, que emprega dois pastores contratados coletivamente. Ao anoitecer, quando os espigueiros da Eira do Penedo se recortam contra o céu violeta, ouve-se ao longe o chocalho das vacas que regressam — são 450 chocalhos de lata, cada um com o número do proprietário marcado a ferro, um som metálico e ritmado que ecoa entre os muros de granito e se perde na montanha.

Dados de interesse

Distrito
Viana do Castelo
DICOFRE
160146
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 25.3 km
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~813 €/m² compra · 3.98 €/m² rendaAcessível
Clima15.1°C média anual · 1738 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
70
Familia
45
Fotogenia
45
Gastronomia
60
Natureza
40
Historia

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Perguntas frequentes sobre Soajo

Onde fica Soajo?

Soajo é uma freguesia do concelho de Arcos de Valdevez, distrito de Viana do Castelo, Portugal. Coordenadas: 41.8772°N, -8.2697°W.

Quantos habitantes tem Soajo?

Soajo tem 670 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Soajo?

Em Soajo pode visitar Pelourinho de Soajo, Espigueiros de Soajo. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Soajo?

Soajo situa-se a uma altitude média de 336.7 metros acima do nível do mar, no distrito de Viana do Castelo.

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