Artigo completo sobre Vale: Dois Caminhos de Peregrinação Cruzam o Vez
A freguesia onde o Caminho de Santiago e a rota da Peneda se encontram entre socalcos e xisto
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O som chega primeiro: o sino da igreja bate três badaladas secas — nada de poético, é mesmo assim. Depois o cheiro da lenha de castanheiro que o Zé Manel já atiou às seis da manhã, misturado com a humidade do xisto que nunca seca bem. Vale tem 662 almas, mas às sete da manhã parecem cinco. A aldeia espeta-se no vale como um prego mal pregado, desde o rio Vez até aos currais lá em cima onde só os garranos é que se atrevem a pastar.
Dois caminhos, uma confusão de romeiros
Cá está a piada: temos dois caminhos de peregrinação a passar aqui. O de Santiago, que vem cheio de gente com mochilões coloridos a pedir água às fontes, e o da Peneda, onde a malta vai descalça em Setembro com os pés todos moídos mas a sorrir como se não doesse nada. No domingo da Lapa é que é bom: o cortejo à noite só com candeias. Parecem todos saídos duma telenovela da RTP, mas é mesmo assim — ninguém liga uma luz eléctrica, nem o café do Tó Mário que tem uma esplanada com vista para a procissão.
Pedra que viu de tudo
A ponte medieval aguenta-se lá, teimosa como a dona Amélia que ainda vai buscar água ao poço. Dizem que os franceses passaram por cá em 1809, mas o que eu sei é que hoje leva tratores John Deere e turistas alemães de sandálias com meias. A igreja tem aquele retábulo dourado que parece o Ferrari do senhor prior — anjos gordos com cachos de uvas, provavelmente aprovavam os vinhos que o meu tio fazia na adega sem licença. A capela da Porta é mais simples, tipo T3 em vez de moradia — mas serve para começar a caminhada até ao Mosteiro. São quatro quilómetros que fazem bem à consciência e mal às articulações.
O que se come e o que se bebe
A Cachena é rainha e não gosta de visinhos. Carne magra que parece maltratada mas sabe a glória quando o António a faz na fogueira durante a festa. Os rojões vêm com sarrabulho — sim, é aquele arroz cor de terra com sangue, mas mete-lhe um dente de alho e vês como muda de figura. A broa de milho do espigueiro do Sr. Albano é tão densa que se a deixares cair no chão faz buraco. E a aguardente de medronho... bem, isso é outra história. Dizem que cura tudo desde constipação a divórcio.
Lá em cima onde o vento rouba gorros
O trilho dos Currais é uma subida que faz os pulmões reclamarem como políticos em campanha. Mas lá em cima, no miradouro, vê-se tudo: o Soajo lá longe parece um Lego espalhado e o Gerês faz-se ao lado como irmão mais velho. Se tiveres sorte — e paciência — os garranos aparecem. São cavalos pequenos e pretos que te olham como se fosses tu o animal de estimação. O rio Vez lá em baixo faz praias que em Agosto ainda gelam os tomates, mas ninguém liga — mergulha-se depressa e sai-se a bufar como foca, é tradição.
Quando o sol se põe atrás dos espigueiros, Vale cheira a chouriço e a noite. O fumo sobe das chaminés e fica preso entre os xistos como segredo de família. Amanhã o sino volta a bater três vezes, o Zé Manel atia a lareira, e tudo recomença — porque aqui é assim mesmo, nem mais nem menos.