Artigo completo sobre União de Caminha e Vilarelho: Entre o Estuário e a Serra
Onde o Minho encontra o Atlântico num burgo medieval com mais de sete séculos de história
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O sino da Matriz não toca às horas certas — adianta-se ou atrasa-se, conforme o vento. Quando soa, o som bate nos granitos do Largo como pássaro esvoçante e desce até ao rio, onde se perde no rumor das águas. A luz daqui não é apenas aquosa: é salgada. Entra-lhe o sabor das algas que se desfazem na foz, o brilho miudinho das escamas que ficam presas às redes no cais. Na Rua Direita, o pão de milho — o broa — deixa cair pelotas de farinha nos degraus; as crianças apanham-nas com a ponta dos dedos e levam à boca antes que a mãe repare.
Em 1284, o rei mandou levantar muralhas. Hoje, sobra um troço escondido atrás da casa dos Carneiros, onde a hera cresce e os gatos se aquecem. O Pelourinho está lá, sim, mas o que marca o tempo é o banco de madeira junto ao cruzeiro: de manhã, os velhos; à tarde, os jovens que partilham auriculares e olham o mesmo rio que os primeiros vigiaram. As “meias-casas” — só quem entra percebe como uma cama cabe de diagonal e como a porta do fogão fica ao alcance da mão de quem se senta na sanita.
Do monte de Santo Antão, o estuário parece folha de prata amassada. O Forte da Ínsua não é só ruína: às vezes, em maré vazia, os miúdos descem ao pátio interior e voltam com bolsos cheios de conchas miúdas que parecem moedas. O Caminho da Costa traz peregrinos com a pele pegando às mochilas; param na pastelaria para pedir um café e um copo de água, e ficam pasmos quando lhes dizemos que o areal de Moledo ainda está a quatro quilómetros abaixo.
Vilarelho mede-se em eiras de milho. Quando a romaria sobe à Serra d’Arga, leva-se um alguidar de sardinhas cruas no alto da cabeça; no regresso, traz-se um ramo de esteva para pôr dentro do armário. A festa de Santa Rita é no domingo mais próximo do dia 22; há fila para os caldo-verdes servidos na panela de ferro que a irmandade guarda o ano todo no celeiro da igreja. O vinho verde — loureiro ou trajadura — bebe-se em copos de plástico rijo que depois se levam para casa, lavam-se e servem de medida para o arroz.
Na Tasquinha da Praça, a caldeirada leva posta de pescada, línguas de sargo e um dente de alho esmagado só ao fim, para não amargar. As enguias vivem ainda em água do rio dentro do balde; quando saltam, o dono apanha-as ao ar como quem apanha uma bola. Os suspiros — merengues com a base mole e a casca estaladiça — vendem-se em saquinhos de papel de cinquenta gramas e nunca chegam a casa inteiros. As morcelas de Bico, curadas na lareira, têm cheiro a fumo que se agarra à roupa do armário sem pedir licença.
Dos 123 alojamentos, metade são quartos transformados nas traseiras de casas antigas: há um onde se dorme debaixo de uma trave com 1720 marcada a carvão, outro onde o chão inclina tanto que a cadeira de rodas do primeiro andar desce sozinha até bater à porta. No verão, o INE voltou para os Censos; perguntaram se ainda há netos a viver com avós. A resposta foi “sim, mas só até arranjarem emprego fora”.
Ao cair da tarde, o cais enche-se de pessoas que não se cumprimentam — limitam-se a fitar o mar. A maré sobe e cobre a escada de pedra onde se sentavam os pescadores; quando desce, deixa uma linha de cabelos de algas que cheira a cruto. Do lado de lá, as luzes de A Guarda acendem-se antes das nossas, porque o sol esconde-se atrás da serra. Caminha fica no meio, sem pressa de escolher lado: é rio, é mar, é o cheiro do broa que ainda arde na garganta quando o sino volta a tocar — desta vez, às escuras.