Artigo completo sobre Seixas: Pedra, Peregrinos e Vinhas no Caminho da Costa
Freguesia granítica em Caminha onde o trilho de Santiago atravessa vinhedos e memórias medievais
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O granito irregular do Caminho da Costa ressoa sob as botas dos peregrinos desde manhã cedo. Em Seixas, o piso não engana: são as "saxa", as pedras que deram nome ao lugar e que afloram por toda a parte — nos muros baixos que delimitam as vinhas, nos alicerces das casas, nos degraus gastos da Capela de São Bento. A 44 metros de altitude, o planalto oferece-se à luz sem resistência. Quando o sol atravessa os ramos dos amendoais, projecta sombras recortadas sobre a cal das fachadas.
A rota dos que caminham
A freguesia integra o Caminho da Costa de Santiago, e essa condição marca o ritmo do quotidiano. Não é raro ver, ao final da tarde, grupos de caminhantes sentados à sombra dos muros, descalços, massajando os pés antes de retomar a marcha até Vila Praia de Âncora. O trilho atravessa o núcleo histórico, passa junto à Igreja Matriz de São Martinho — construção do século XVIII com retábulo baroquejo de talha dourada — e serpenteia entre vinhedos. A peregrinação medieval deixou marcas discretas: cruzeiros de 1734 junto aos caminhos, fontes como a dos Cântaros, onde a água fria escorre sobre pedra musguenta.
No lugar do Castelo Velho, junto à ribeira de Teja, subsistem vestígios de uma fortificação castreja. As escavações de 1985 confirmaram ocupação do Bronze Final, mas o que resta hoje é mais sugestão do que evidência — um alinhamento de pedras, um desnível no terreno. A ribeira corre baixa no verão, entre margens de canas e salgueiros, criando pequenos vales onde a humidade persiste mesmo nos dias de calor seco.
Vinho verde e amêndoa
A paisagem é dominada por vinhedos da região dos Vinhos Verdes, dispostos em socalcos ou alinhados em latadas baixas. A vindima, em Setembro, concentra esforços: as uvas Loureiro e Alvarinho são colhidas à mão, transportadas em cestos de verga. Na Quinta do Rego, é possível provar o vinho fresco, ligeiramente efervescente, com acidez que corta a sede.
A gastronomia assenta no terroir: fumeiro caseiro pendurado nos fumeiros de granito, pão de milho cozido no forno comunitário de Carreço, bolos de amêndoa preparados nas épocas festivas. A amêndoa, aliás, é presença constante — nos doces conventuais que aparecem nas mesas de festa, mas também nos figos secos recheados que se guardam em latas de folha. O azeite local tempera as sopas de hortaliça, e o colorau tinge de vermelho os enchidos que secam ao vento.
Romarias e fogueiras
As festas estruturam o calendário. A Festa de São Bento, a 21 de Março, com novena, procissão e fogo de artifício, atrai devotos à capela homónima. A Romaria de São João D'Arga, no primeiro domingo de Agosto, leva peregrinos até à serra que se avista a leste, onde o martírio do santo foi trazido por crusados regressados de Terras Santas. Santa Rita de Cássia também tem dia marcado, a 22 de Maio, com missas e procissões que enchem o adro da igreja matriz. Nas noites de verão, o fogo de artifício ilumina brevemente o vale do Minho, e o eco das explosões ressoa até aos montes.
A serra de Arga ergue-se no horizonte como referência permanente. Nos dias limpos, o perfil recortado das cristas destaca-se contra o azul, e os matos de estevas que cobrem as encostas tingem-se de amarelo na Primavera. Os 1413 habitantes distribuem-se pelos 833 hectares da freguesia — 169 por quilómetro quadrado — permitindo que o território respire: há espaço entre as casas, silêncio entre os sons.
Ao entardecer, quando os peregrinos já partiram e as vinhas projectam sombras compridas, ouve-se o sino da igreja matriz — fundido em 1887 — chamando para a reza. O som atravessa a freguesia, bate nas pedras do Castelo Velho, perde-se na ribeira de Teja. Fica o cheiro a lenha queimada nos quintais e o murmúrio da água na Fonte dos Cântaros — sinais de que, aqui, o essencial ainda se mede em gestos repetidos.