Artigo completo sobre Venade e Azevedo: onde os campos respiram história
Entre a serra d'Arga e os vinhos verdes, duas freguesias unidas por tradição e paisagem rural
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A calçada húmida da manhã reflecte o verde dos campos que se estendem até onde a vista alcança. O sino da igreja matriz de Venade toca às sete e meia - sempre dois toques seguidos, pausa, dois toques outra vez. Mistura-se com o canto do galo do Sr. Armindo, que nunca falha, nem debaixo de chuva. Aqui, a apenas quatro quilómetros de Caminha, a luz tem uma qualidade diferente — mais suave que na costa, filtrada pela humidade que sobe dos campos de milho e das vinhas que cobrem a paisagem ondulada.
A União das Freguesias de Venade e Azevedo nasceu em 2013, mas as suas raízes mergulham fundo no tempo. As duas igrejas matrizes — a de Venade e a de Azevedo — erguem-se com alvenaria de pedra que guarda séculos de orações. Na de Azevedo, a pedra do portal é mais clara à direita, onde em 1924 rebentou um raio que fez cair o campanário. A Capela de Nossa Senhora do Caminho, a meio do caminho para a serra, tem uma porta que range sempre no mesmo sítio. Os peregrinos do Caminho da Costa param ali para beber água da fonte, deixando nas pedras pegadas de barro seco.
Quando o vale respira
A freguesia vive num microclima que os mais velhos conhecem de cor. Protegida pela serra d'Arga, pode fazer 25 graus aqui quando em Moledo a neblina mantém a praia a 15. Nos dias de sol pleno, o calor acumula-se nos muros de granito das casas, enquanto a brisa que desce da serra traz o cheiro a carvalho e a terra molhada. Os campos agrícolas estendem-se em patamares construídos há séculos, paredes de pedra que seguram a terra vermelha onde nascem os melhores melões de Inverno do Minho. Nas quintas, o vinho verde ainda fermenta em toneis de carvalho, e é servido em copos de cristal fino quando aparece alguém de fora.
Oitocentos e oitenta e uma pessoas, mas na prática são menos. Ao fim-de-semana sobem os filhos que vieram trabalhar ao Porto, enchendo as cafetarias de Vilar de Mouros. As portas de madeira gretada abrem-se para quintais onde crescem azevinhos - sim, ainda há, apesar do nome que poucos sabem explicar. A densidade baixa, de setenta e sete habitantes por quilómetro quadrado, garante que o silêncio seja interrompido apenas pelo vento nos eucaliptos e pelo tractor do Zé Carlos, que passa às sete da manhã para ir para a vinha.
Romarias e mesas fartas
As festas moldam o calendário local. A Festa de São Bento em Janeiro traz os vizinhos de Tourais, que vêm provar o arroz de tomate da Dona Alice. Mas é a Romaria de São João D'Arga que marca o ano, quando subem a pé desde Caminha, passando por Venade, subindo a serra em procissão. Levam cântaros de vinho branco e pão de milho, e param no meio do caminho para cantar o "Ó São João, ó São João". A música tradicional — concertinas, bombos, vozes que conhecem as letras de cor — ecoa nos adros, misturando-se com o fumo das sardinhas assadas nos ferros de grade trazidos de propósito.
À mesa, a cozinha minhota revela-se sem artifícios. O caldo verde leva couve galega cortada com tesoura, e o chouriço é do porco do António, que mata sempre em Dezembro. O arroz de sarrabulho leva sangue fresco - não aquele de embalagem - e os rojões são da caraças do porco, a parte que fica melhor com o colorau. Nos dias de festa, as mulheres fazem pão de ló no forno de lenha, medindo o tempo com o canto do rouxinol que vive no choupo do quintal.
Entre o rio e a serra
A dois quilómetros de distância, o rio Minho corre lento, marcando a linha que separa Portugal de Espanha. A praia fluvial de Arga tem uma rampa de cimento onde os miúdos se atiram de bicicleta, e uma zona de sombra onde as avós tricotam enquanto vigiam os netos. Para quem procura caminhadas, o trilho sobe pela levada da serra, passando pelo moinho do Côvo - onde o Zé Manel ainda mói milho para a farinha de broa - e sobe até ao Poço das Freiras, onde a água é tão fria que dói nos dentes.
A proximidade de Caminha facilita a logística: o ferry para Galiza, as praias de Moledo e Afife, o centro histórico onde se bebe um café a 80 cêntimos. Mas é aqui, nesta união de duas aldeias que partilham o mesmo horizonte verde, que o Minho se revela sem pressa. O vento traz o cheiro a vinha madura - sobretudo em Setembro, quando as uvas deixam as mãos pegajosas. O granito das igrejas aquece ao sol da tarde, e guarda o calor até bem tarde. E quando a noite cai, o sino volta a tocar - primeiro o de Venade, depois o de Azevedo, como se falassem entre si - marcando o ritmo de uma vida que não precisa de explicações.