Artigo completo sobre Castro Laboreiro: planalto de granito, lobos e vida dupla
Território de dólmenes milenares, castelo medieval e tradições de transumância no extremo norte
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O silêncio chega primeiro. Não é ausência — é presença. Um silêncio denso, de planalto, que se instala nos ouvidos como algodão húmido quando o motor do carro se desliga e a altitude de quase mil metros se faz sentir na pele. Depois, lentamente, os sons infiltram-se: o vento a raspar nos afloramentos graníticos, o murmúrio distante do Rio Laboreiro a escavar rocha, o ladrar grave e territorial de um cão de pelagem escura algures entre os penedos. Estamos a 972 metros de altitude média, na União das freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro, no concelho de Melgaço, distrito de Viana do Castelo. Aqui vivem 503 pessoas — menos de cinco almas por quilómetro quadrado num território com mais de dez mil hectares. A solidão não é abandono. É vocação.
Pedras que antecedem os reis
O planalto é um cemitério e um berço ao mesmo tempo. Cento e vinte dólmenes — uma das maiores concentrações megalíticas do país — pontuam a paisagem de urze e carvalho-alvarinho, com mais de cinco mil anos. Gravuras rupestres no granito registam quem aqui vivia antes de haver escrita. No topo do monte, D. Afonso Henriques mandou erguer um castelo em 1141 para vigiar a fronteira com Leão, aproveitando uma fortificação que os romanos já tinham ocupado. Hoje, as cinco torres quadradas resistem em ruína sólida, e a cisterna medieval conserva água da chuva. O pelourinho colunar, com pináculo piramidal, marca o centro de uma vila que foi sede de concelho durante quase seis séculos, de 1271 a 1855 — tempo suficiente para inscrever na pedra e nos costumes uma identidade que a fusão administrativa de 2013 com Lamas de Mouro não diluiu.
A vida dupla das estações
Havia aqui um modo de existir que quase desapareceu: brandas e inverneiras. Até meados do século XX, famílias mudavam-se com o gado — para cima, para as aldeias de planalto, quando o calor secava os vales; para baixo, para os abrigos encaixados entre rochedos, quando o Inverno cobria de geada os pastos altos. As casas ainda existem, muitas com telhados de colmo substituídos por lousa, e o trilho PR4 "Castelo & Gravuras" percorre fisicamente o calendário de uma comunidade que lia o ano pela cor da erva.
O cão que não se domesticou
O Cão de Castro Laboreiro, reconhecido como Património Genético Nacional, foi moldado para enfrentar o lobo-ibérico — o mesmo lobo que ainda percorre estas serras dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Um canil municipal na freguesia preserva a raça. Na Festa Crasteja, a 15 de Agosto, avaliam-se exemplares segundo padrões ancestrais. Ver estes cães no seu território é compreender que foram esculpidos pelo mesmo ambiente que moldou a rocha.
Fumo, centeio e alvarinho
A altitude impõe uma gastronomia de substância. O pão de centeio sai dos fornos comunitários que ainda marcam as aldeias — a crosta estala, o miolo é denso. A Carne Cachena da Peneda DOP, de animais criados nos montes, aparece em arroz lento. A Carne Barrosã DOP serve-se em ensopados ou rojões. A charcuteria é liturgia: Presunto de Melgaço IGP, Salpicão de Melgaço IGP, Chouriça de Carne e Chouriça de Sangue de Melgaço IGP — peças curadas no fumeiro, onde o cheiro a lenha de carvalho impregna tudo. Para beber, o vinho verde alvarinho de Melgaço, fresco e mineral. E há ainda a aguardente de medronho e o licor de castanha.
Água que cai, água que lava a rocha
O trilho PR3 "Cascatas e Moinhos" segue o Rio Laboreiro entre fragas cobertas de musgo. As cascatas das Fechas do Malho precipitam-se em poços naturais onde a água mantém frio cortante mesmo no Verão. O Poço do Contador espera mais adiante, transparente até ao fundo de granito polido. Em Lamas de Mouro, a Ponte e os Moinhos de Porto Ribeiro completam um percurso que é porta de entrada no Parque Nacional — ali funciona o centro interpretativo onde se pode planear a Grande Rota da Peneda-Gerês ou retomar o Caminho de Santiago Norte, que entra em Portugal precisamente por aqui, pela fronteira do rio Mouro.
O narciso que ninguém vê
No final da tarde, quando a luz rasante transforma os afloramentos graníticos em esculturas douradas, um milhafre-real desenha círculos lentos. O ar cheira a urze pisada. Na Primavera, entre os dólmenes que ninguém visita durante semanas, brotam narcisos brancos — flores que cumprem o seu ciclo com a mesma indiferença serena que este planalto mantém há cinco mil anos. É essa indiferença — não hostil, apenas vasta — que se leva daqui: a certeza de que existe um lugar onde a terra não precisa de nós para continuar.