Artigo completo sobre Chaviães e Paços: peregrinos, pesqueiras e fronteira
Duas aldeias na raia do Minho onde o Caminho de Santiago cruza armadilhas medievais de pesca
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O adro da igreja de Chaviães amanhece com o som de botas de caminhante sobre a calçada irregular. É um dos raros lugares em Portugal onde o Caminho de Santiago da Costa atravessa directamente o coração da freguesia — os peregrinos passam junto ao portal românico do século XIII, encostam as mochilas ao muro de granito, bebem água na fonte antes de descer ao vale do Minho. O ar traz o cheiro a lenha das lareiras matinais e, lá em baixo, o rio corre largo e manso, marcado por muros de xisto escuro que rasgam a corrente: as pesqueiras medievais, erguidas sem argamassa há mais de quatrocentos anos, continuam a funcionar como armadilhas ancestrais para o sável e a lampreia.
Duas aldeias, uma raia
A União das Freguesias de Chaviães e Paços nasceu oficialmente em 2013, mas as duas comunidades remontam a tempos muito anteriores. Chaviães aparece em documentos de 1183, quando D. Afonso Henriques anexou metade do território ao foral de Melgaço; vestígios no Coto da Moura e no Monte do Castelo provam ocupação pré-romana. Paços, registada desde 1210 como "vila", deve o nome à existência de casas nobres ou paços administrativos. A geografia explica tudo: encostadas à raia minhota, estas terras foram repetidamente invadidas por tropas galegas durante a Guerra da Restauração. A Casa Grande, exemplar de arquitectura senhorial rural às margens do Minho, ergue-se como testemunha desses tempos de fronteira armada e alianças instáveis.
Hoje, com 559 habitantes dispersos por 847,9 hectares dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a freguesia mantém o ritmo próprio das comunidades que vivem entre o rio e a serra. A densidade é baixa — 65,92 habitantes por quilómetro quadrado — e a pirâmide etária pesa para cima: 259 idosos contra 39 jovens. Mas há sinais de resistência: três alojamentos turísticos (apartamentos e moradias) abriram portas, a mercearia "O Minho" vende Presunto de Melgaço IGP e Chouriça de Sangue de Melgaço IGP aos visitantes, e o último sábado de Março reúne dezenas de pessoas no "Dia do Fumeiro", workshop comunitário onde se enrolam chouriças e se almoça à volta de mesas compridas.
Caminhos de água e pedra
A Rota das Pesqueiras (PR7) percorre cinco quilómetros junto ao Minho ao pôr do sol, quando a luz rasante acende o xisto das armadilhas e as aves ribeirinhas — garças, patos-reais, milhafres — regressam aos ninhos. Do Miradouro de Viladraque, a vista abre-se sobre o vale fluvial até ao espinhaço da serra de Peneda, com as suas matas de carvalho-alvarinho e sobreiro. Mais abaixo, a única praia fluvial de Melgaço — no Louridal — oferece águas limpas, zona de piquenique e rampa para caiaque. Alguns visitantes fazem o percurso de barco, remando desde Viladraque até à praia, com paragem para mergulho a meio caminho.
Em Paços, um sobreiro centenário guarda memória oral: a "árvore juramentada", onde, segundo a tradição, os trovadores do Minho juravam lealdade antes de atravessar a ponte de barca para a Galiza. A junta mantém viva outra tradição: o "Livro de Irmandade", onde cada novo residente assina e deposita uma gota de vinho branco Alvarinho, selando simbolicamente a entrada na comunidade desde 1962.
Fumeiro, vinho e romarias
A gastronomia assenta nos produtos IGP e DOP de Melgaço: Carne Cachena da Peneda servida em rojões à Minhota, Salpicão fatiado fino com broa de milho, bacalhau assado no forno de lenha com batatas e cebola. A doçaria inclui o bolo de São Bento — amêndoa e ovo — e os suspiros de Paços, vendidos nas tasquinhas durante as festas de Verão. Santa Maria Madalena (22 de Julho) e Santa Ana (26 de Julho) enchem as ruas de procissões, arraiais e bailes populares; a Romaria de Nossa Senhora da Conceição (8 de Dezembro) mantém a bênção de frutos e animais, gesto agrícola que atravessa séculos.
Ao entardecer, quando os peregrinos partem e o silêncio regressa ao adro, ouve-se apenas o sino da igreja de Chaviães e, lá ao fundo, o murmúrio contínuo do Minho contra os blocos de xisto das pesqueiras. É um som que os pescadores conhecem de cor — o rio a bater na pedra, insistente, como quem recusa deixar-se aprisionar.