Artigo completo sobre Parada do Monte: espigueiros de xisto e caminhos medievais
Freguesia de altitude em Melgaço onde pastam duas raças DOP e a história se conta em pedra
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O cheiro a lenha de castanheiro mistura-se com o fumo da broa no forno comunitário de Parada do Monte. São sete da manhã e o nevoeiro ainda cobre os espigueiros de xisto, trinta e sete no total, enfiados num hectare de terra batida sem um grama de argamassa a uni-los. O silêncio é denso, quase palpável, apenas quebrado pelo tilintar dos chocalhos das vacas cachenas que descem do planalto. Aqui, a 649 metros de altitude, o ar é diferente — mais fino, mais frio, com um travo a resina de medronheiro que gruda à garganta.
O monte que obrigava à paragem
Parada do Monte não é nome escolhido ao acaso. Na Idade Média, mercadores e peregrinos que subiam a serra do Peneda rumo a Santiago faziam aqui paragem obrigatória antes do último troço de montanha. A Capela de São Bento, ermida românica do século XIII, marca ainda hoje esse ponto de passagem do Caminho Português da Costa — a seta amarela pintada no granito cinza aponta para o vale onde corre o rio Peneda. Em Cubalhão, nome que vem do latim «cubăl(l)ĭānum» (pequena cuba ou abrigo), o cruzeiro manuelino do início do século XVI ergue-se com inscrições latinas quase apagadas pelo vento e pela chuva de quinhentos invernos.
Durante as Invasões Francesas, os habitantes esconderam os bens litúrgicos da igreja matriz em covas junto ao rio. A 21 de março, na Festa de São Bento, a imagem do santo sai em procissão coberta de ex-votos de prata — mãos, pernas, corações — e no adro parte-se o folar enquanto as tecelãs competem no tear de lã barrosã. Maria da Luz Pereira, falecida em 2008 aos 87 anos, foi a última a dominar o tear de 4 pedais que a avó lhe deixara em 1953. Hoje, o tear guarda-se na casa onde viveu, na rua da Igreja, e a Câmara de Melgaço classificou a técnica como Património Imaterial em 2017.
Carne com dois nomes DOP
A freguesia é o único lugar em Portugal onde pastam em liberdade duas raças bovinas com Denominação de Origem Protegida: a barrosã e a cachena. Nos planaltos que sobem até aos 900 metros, os touros negros e pequenos da cachena dividem pasto com as reses mais robustas da barrosã. O caldo de nabos com fumeiro de boi barrosã ferve devagar nas panelas de ferro das casas de pedra. Os rojões à moda de Melgaço chegam à mesa com arroz de sarrabulho, e o bucho recheado de carne de cachena e hortelã solta um vapor denso que embacia os vidros das janelas.
Na Quinta da Peneda, o Alvarinho cresce a 650 metros — altitude que lhe empresta uma frescura acentuada e notas cítricas mais vincadas. As vinhas agarram-se ao xisto escuro, e as caves guardam garrafas que nunca saem do concelho sem antes passarem pela prova dos locais. O engenheiro agrónomo José Morais, que plantou as primeiras vinhas em 1993, ainda marca a prova com o punho cerrado: «Se o Alvarinho não aguentar três voltas no copo, não sai daqui.»
Trilho até à cascata
O PR6 «Caminho do Monte» sobe doze quilómetros até à cascata da Peneda, com 550 metros de desnível acumulado. O trilho atravessa carvalhais onde o musgo cobre tudo — pedras, troncos caídos, raízes expostas. No miradouro do Cruzeiro, a vista estende-se sobre o vale do Minho e a serra do Soajo, e nas noites sem lua o céu abre-se num manto de estrelas classificado como «Dark Sky» pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês. O abutre-do-ventre-branco risca o azul em círculos largos, e o melro-azul canta escondido nos bidoeiros.
Quando o nevoeiro desce denso sobre Cubalhão, os habitantes dizem que «o Monte está a fumar» — crença de que São Bento acende fogueira para guiar os viajantes perdidos. O eco dos chocalhos de madeira na Chocalhada de Natal ainda ressoa nas ruas desertas, e o granito das casas guarda o frio húmido da madrugada mesmo quando o sol já nasceu.