Artigo completo sobre São Paio: vida serrana entre fumeiros e garranos
A freguesia mais pequena de Melgaço preserva tradições de altitude no sopé da Peneda-Gerês
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O chocalho de madeira ressoa na encosta antes do amanhecer. Alguém conduz garranos pelo trilho de xisto enquanto o nevoeiro ainda cobre o vale do Mira. Em São Paio, a 521 metros de altitude, o dia começa com o ritual de sempre: abrir a porta do fumeiro, onde os presuntos e salpicões pendem no escuro há meses, e sentir aquele cheiro intenso a lenha de carvalho misturado com sal e alho. Lá fora, os espigueiros de pedra e madeira recortam-se contra a luz cinzenta da manhã, guardiães mudos de uma economia que ainda resiste.
A freguesia mais pequena de Melgaço — 535 habitantes, mais de metade com mais de 65 anos — ocupa quase mil hectares no sopé do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Os muros de pedra seca desenham um mosaico de parcelas minúsculas onde cresce a vinha de alvarinho, os castanheiros centenários e os carvalhais que alimentam o gado cachena. O rio Mira serpenteia entre os lugares de Padrão, Vilar e Azevedo, criando lagoas naturais onde, nos dias de verão, se ouve o mergulho súbito de quem vem arrefecer depois da ceifa.
Pedra que conta séculos
A Igreja Matriz ergue-se barroca, o retábulo em talha dourada resplandecendo quando o sol da tarde entra pelas janelas altas. Nos painéis de azulejo setecentistas, cenas bíblicas convivem com a poeira acumulada nos bancos vazios durante a semana. Mais discreta, a Capela de São Bento guarda uma campânula manuelina invertida — reza a tradição que foi reaproveitada de um pelourinho antigo — e recebe, no segundo fim de semana de julho, a romaria que traz bailarico popular e feira de artesanato ao adro. A ponte medieval sobre o Mira, estreita e gasta pelo trânsito de séculos, ainda serve os peregrinos do Caminho de Santiago que atravessam a freguesia rumo à Galiza. É o último ponto de abastecimento antes de 28 quilómetros sem serviços.
No lugar de Padrão, uma necrópole calcolítica guarda tumuli classificados como imóvel de interesse público. Ao lado, uma pedra de aragem com a inscrição "1495" marca a antiga fronteira entre Portugal e Espanha, antes do rio se tornar definitivo. Em Vilar, o moinho de água — datado de 1783 e o único do concelho ainda em funcionamento esporádico — range aos sábados quando o moleiro mostra a moagem de milho à moda antiga. A roda de madeira gira devagar, o grão esmagado liberta um pó branco que se deposita nas tábuas do chão.
Fumeiro, alvarinho e caretos de lã
A gastronomia aqui não se separa do calendário. A 11 de novembro, dia de São Martinho, a Ceia do Porco reúne a aldeia em torno de cabrito assado na brasa, caldo de nabos com feijão branco e chouriça de sangue de Melgaço IGP. O vinho novo corre, ácido e fresco, enquanto as brasas estoiram. No domingo de Carnaval, os caretos de lã e chocalhos de madeira percorrem as ruas na Chocalhada de Entrudo, ecoando um ritual que já ninguém sabe datar. Em março, a Feira do Fumeiro transforma-se em mostra-concurso de enchidos tradicionais — presunto, salpicão, chouriça de carne — todos protegidos por Indicação Geográfica.
A Quinta do Regueiro, onde o enólogo Rui Mira inovou ao vinificar alvarinho em barrica usada, abre portas para degustações. Os vinhos verdes daqui, nascidos em solos xistosos, têm mineralidade afiada e frescura que sobrevive ao calor do verão. Mas não te deixes enganar: a única casa de turismo rural oficial é a Casa do Correio Mor. O resto são casas particulares que alugam quartos por baixo da mesa — pergunta pela D. Amélia do Azevedo, que faz pão de milho nas candeias e marmelada de figo.
Trilhos entre o xisto e o céu
O Trilho dos Espigueiros desenrola oito quilómetros entre aldeias, moinhos e miradouros sobre o vale. Ao amanhecer, o silêncio é pontuado pelo grito do milhafre-real e pelo trote surdo dos garranos no mato. Mais exigente, o Trilho do Miradouro da Peneda sobe até ao coração do Parque Nacional, onde o narciso do Gerês floresce entre afloramentos graníticos e a vista se estende até ao Soajo. No lugar de Azevedo, um castanheiro de 400 anos — sete metros de perímetro — oferece sombra densa mesmo ao meio-dia. Os mais velhos dizem que foi aí que os contrabandistas paravam para contar as moedas antes de atravessar o rio.
Quando a noite cai sobre São Paio, longe de qualquer poluição luminosa, o céu escuro revela constelações que já guiaram peregrinos medievais. O vento traz o cheiro a terra molhada e a fumo de lareira. Algures, um cão ladra. E no fumeiro entreaberto, os presuntos continuam a curar devagar, dia após dia — o Zé do Padrão diz que os seus ficam lá dois anos, "até perderem a esperança de ser comidos".