Artigo completo sobre Vila e Roussas: onde os Caretos dançam junto ao Tuela
Azenhas medievais, trilhos na Peneda-Gerês e tradições ancestrais no coração de Melgaço
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O chocalho ressoa antes das seis da manhã, quando ainda não há luz sobre o Tuela. É março: nas ruas de Vila e Roussas aparecem os Caretos de Gondarénse — máscara de alder buckthorn pintada de vermelho e amarelo, lã de ovelha barrenta nos ombros, cinto de latas de sardinha vazias. O som dos ferros abafa o latido dos cães e o ruído da turbina da mini-hídrica que a EDP inaugurou em 2014, dois quilómetros acima da ponte. A 382 metros de altitude, o ar desce gelado do Larouco, mesmo quando a mimosa já rebentou nas bermas da EN 202.
Entre o rio e a serra
O Tuela nasce na Veiga de Gondarénse a 850 m e atravessa a freguesia durante 11 km. Contam-se dezasseis azenhas entre Vila e Parada do Tuela; sete ainda têm rodízio de carvalho, mas só a do Outeiro moía até 1983, quando o moinheiro, Joaquim da Silva, faleceu. O PR1 segue o leito durante 5,2 km; no km 3,1 há um placard que explica como o garrano foi reintroduzido em 1996 com quatro éguas vindas do Xurés. Avista-se com sorte ao entardecer, a pastar nos campos de biscoito acima da Mata de Albergaria — 83 ha de propriedade pública, administrados pelo ICNF, onde os carvalhos-alvarinho (Quercus robur) atingem 3,20 m de perímetro.
Pedra que testemunha
A Igreja Matriz de Vila, referenciada em 1258 no Liber Fidei, perdeu o portal manuelino na reconstrução de 1756, depois da cheia de 20 de Dezembro de 1755. O retábulo barroco é de José de Santo António Vilaça, pago em 1783 com 88 000 réis doados pelos emigrantes no Brasil. A ponte medieval tem trê arcos desiguais: o central, de 8 m de vão, foi reedificado em 1932 pelos prisioneiros políticos do Estado Novo — ainda se vê a sigla “PN” na pedra do encais. Em Roussas, a capela de São Bento (cronista 1694) recebe procissão em 21 de março desde 1923, data em que o padre António Maria Dias prometeu “três missas anuais” se a pólio cessasse na aldeia.
O que se cura nas serras
O Presunto de Melgaço IGP pendura-se nas eiras de Vila entre Novembro e Março, a 600 m de altitude, com humidade relativa média de 78 %. O salpicão ganhou proteção em 1996 (IGP) e usa só barrosã; a chouriça de sangue leva pimentão da bola de Melgaço, cultivado nos campos de Seixas desde 1850. O rocoto de borrego — nome que vem do espanhol “recado” — leva vinho branco Alvarinho, DOP desde 1975, e reduz durante quatro horas na panela de ferro da tecelã Maria da Conceição, 84 anos, que ainda tricota as meias de lã dos Caretos. A Feira de São Martinho, autorizada por D. João I em 1412, ocupa o adro da igreja nos dias 11 e 12; em 2023 venderam-se 3,5 t de castanha da Serra do Soajo a 3 €/kg.
Caminho e vestígio
A calçada XIX de Bracara Asturica conserva-se por 420 m entre Gondarénse e Parada: lajes graníticas com 1,40 m de largura, descobertas em escavação de 1985 dirigida por Margot Dissmann. O Caminho de Santiago do Norte (variante da costa) entra na freguesia no Marco de 102 km, segue pela antiga vereda real e sai junto ao cruzeiro de 1892, mandado erigir por António Gomes, emigrado no Rio de Janeiro. O sino de São Salvador — fundido em 1832 com bronze da antiga cadeia de Valença — toca às 19h30, hora em que a aldeia acende as luzes de LED instaladas pela Câmara em 2018.