Artigo completo sobre Anhões e Luzio: 6 antas milenares na Serra da Anta
Monumentos megalíticos, miradouros a 664 metros e memórias medievais no alto de Monção
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O granito escuro das antas aquece ao sol da manhã quando o nevoeiro se levanta sobre a Serra da Anta. São seis monumentos megalíticos com cinco mil anos, dispostos como sentinelas numa paisagem onde o carvalhal alterna com os matos rasteiros e os lameiros. O vento traz o som do sino de Anhões — Luzio fica a 3 km, demasiado longe — e o cheiro a terra húmida mistura-se com o fumo de lenha que sobe das chaminés dispersas pelo vale.
Pedras que contam milénios
A Portela da Anta e o Mendouro guardam sepulturas que antecedem os nomes que conhecemos. Quando as Inquirições de 1258 registaram «Aguianos» no julgado da Penha da Rainha, já estas pedras erguidas marcavam a passagem de povos proto-históricos. Em 1308, D. Dinis doa Luzio a D. João Fernandes de Sotto Maior, bispo de Tui, com uma obrigação singular: os habitantes ficam isentos do serviço militar, mas em caso de guerra com a Galiza têm de defender o vau da Estaca, no rio Minho. Cada família pagava ao Mosteiro de S. Fins quatro ovos, um cabrito, três dias de trabalho e dez réis; quando o rei passava, ofereciam-lhe uma vaca — e se trouxesse o filho, "vacca e mea".
Nascentes e miradouros
No alto do Castelo do Mendouro, a 664 metros, o olhar alcança o vale do Minho e as serras galegas do outro lado. É o ponto mais alto do concelho de Monção, onde as sepulturas célticas se confundem com o afloramento rochoso. Aqui nascem os dois braços do rio Gadanha — um na Portela da Anta, outro no monte das Forcadas — que se unem numa "fisga" junto a Vilar antes de descerem para regar os lameiros do vale. Veados e javalis cruzam os trilhos entre os carvalhais; perdizes levantam voo nos matos quando os passos se aproximam.
Altares e coretos de granito
Em Anhões, a igreja paroquial alinha três altares sob o tecto de madeira escura. No adro, os coretos de 1921 e 1922 testemunham as festas de Verão, quando a romaria do Senhor do Bonfim sobe até à capela de 1868 — a torre foi acrescentada em 1958 — e enche a serra de vozes e acordeão. Em Luzio, a igreja barroca conserva imagens da Sagrada Família em marfim, delicadas e raras. A Capela da Senhora do Desterro, de 1821, recebe no último domingo de Julho uma procissão que desce pela estrada de terra batida entre muros de xisto.
Cabrito e Alvarinho na mesa
O cabrito assado no forno — "à moda dos Anhões" ou "à moda de Luzio", consoante a casa — chega à mesa com a pele estaladiça e a carne tenra, temperada com alho e colorau. As papas de sarrabulho fumegam na terrina de barro, acompanhadas por pão caseiro e um copo de Alvarinho frio. A Carne Barrosã DOP e a Carne Cachena da Peneda DOP garantem a qualidade dos rojões à minhota que se servem no "Campo em Festa", evento promovido pela Junta onde o cozido à portuguesa reúne vizinhos e visitantes em torno de mesas compridas ao ar livre.
A luz da tarde rasga o nevoeiro e revela, no horizonte, o perfil recortado das antas. O rio Gadanha murmura entre as pedras, invisível mas constante, enquanto o fumo das lareiras se ergue vertical no ar frio da serra.