Artigo completo sobre Mazedo e Cortes: onde nasceu a primeira Monção
Vinhas de Alvarinho, igrejas barrocas e vestígios da antiga Monção Velha no coração do Minho
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A luz da manhã atravessa as videiras em socalcos e espalha-se pelo vale do Minho, desenhando sombras compridas entre os ramos do Alvarinho. O ar cheira a humidade da terra acabada de regar, a folha de vinha e, conforme o dia avança, a fumo de lenha que sobe das chaminés de Requião e Carrazedo. Nas margens do rio, onde a água corre lenta entre as pesqueiras de Pedra Antiga, ouve-se o murmúrio constante da corrente e, ao longe, o sino da Igreja do Divino Salvador que marca as horas desde o lugar do Quinteiro.
Monção antes de Monção
A história desta terra guarda um segredo que poucos conhecem: antes de haver Monção onde hoje a conhecemos, havia Monção Velha — e tudo indica que se situava exactamente aqui. Em 1261, D. Afonso III emitiu uma carta de povoamento referindo-se ao "cauto de Maazedo", atribuindo-lhe o nome de Monção. Cortes, que só se tornou freguesia autónoma em 1989, pode bem ser uma das povoações mais antigas da região. Caminhar por estas ruas é caminhar sobre camadas de tempo acumulado, onde cada pedra do cruzeiro do Senhor dos Aflitos, cada brasão manuelino nas fachadas, cada alminha tradicional conta uma história que antecede a própria vila fortificada.
Altares dourados e quartos de pedra
A Igreja Paroquial do Divino Salvador ergue-se com a sua escadaria de acesso e torre sineira em arco. No interior, o altar-mor barroco brilha em talha dourada, guardando as imagens de Santa Filomena, S. Gabriel, Cristo Crucificado, S. Salvador e Santo António. A luz que entra pelas janelas laterais acende o ouro da talha em reflexos que mudam consoante a hora. Mais discreta mas igualmente cuidada, a Capela de Santa Cruz em Requião exibe altar-mor em madeira trabalhada, recentemente restaurada, com S. Bento, S. Brás, Bom Jesus, Coração de Maria e S. Salvador. A Capelinha de Nossa Senhora do Campo, também chamada dos Prazeres, guarda as suas imagens de Santo António, Menino Jesus e Nossa Senhora numa intimidade de cal branca e pedra fria.
O Solar de Serrade, hoje convertido em turismo de habitação, ostenta no seu brasão do século XVII os apelidos Barbosa, Marinho, Castro e Soares. Em 1801, estas mesmas paredes serviram de quartel às forças de vigilância da fronteira comandadas pelo marquês de la Roriere. Dormir neste solar é dormir numa casa que já viu soldados, cavalos e ordens militares ecoarem nos seus corredores de granito.
A mesa que o rio e a vinha compõem
A cozinha local não inventa — transforma o que o território dá. O borrego de Mazedo, o cabrito no forno à moda de Cortes, o arroz de lampreia e os pratos com sável do rio Minho são a tradução directa da paisagem para o prato. A Adega Cooperativa Regional de Monção, instalada em Mazedo, é o coração económico da freguesia: aqui nascem os vinhos Muralhas, Danaide e D. Inês, mas é o Alvarinho que comanda a reputação. Nas caves, o cheiro a mosto e madeira impregna o ar durante as vindimas, e as garrafas alinham-se nas prateleiras como testemunhas líquidas de cada ano, cada chuva, cada sol.
Entre o rio e os soutos
A paisagem organiza-se entre o Minho, que desenha a fronteira a norte e a oeste, e os afluentes do Gadanha que cortam o território em vales estreitos. Pequenos soutos, olivais e vinhedos em socalcos sucedem-se entre os lugares de Antoinha, Pomar, Cruzeiro, Agrelo, Boavista, Quinta da Oliveira e Regueiro. Os moinhos de água, alguns ainda de pé mas já silenciosos, pontuam as margens. A Rota dos Fontanários convida a um passeio pedestre entre vinhas e olivais, onde o único esforço é resistir à tentação de parar a cada curva para olhar o vale.
No dia 6 de agosto, a festa do Divino Salvador enche a freguesia de vozes, procissões e arraiais. A 3 de maio, a romaria de Santa Cruz reúne fiéis e curiosos. Em Cortes, a Festa do Menino no dia 1 de janeiro e a festa da Senhora da Cabeça na terça-feira após a Páscoa prolongam o calendário festivo até à Primavera.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante doura os troncos das vinhas e o vale do Minho se enche de sombras azuladas, ouve-se ainda o sino do Quinteiro. É um som que não anuncia nada de urgente — apenas confirma que aqui, entre pedra antiga e vinho novo, a vida continua ao ritmo das estações e das vindimas.