Artigo completo sobre Monção e Troviscoso: onde o Minho encontra o rio
Fortaleza medieval, vinhas de Alvarinho premiado e memórias entre dois países no coração do Minho
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O granito das muralhas ainda retém o calor quando as sombras descem do Monte Aloia. Do Castelo de Monção, o rio parece parado — mas quem conhece sabe que é ali, naquela lentidão aparente, que a maré de Espanha empurra a água até Valença. O vento traz o cheiro das vinhas que sobem em socalcos pela Serra da Lua, enquanto o sino da Matriz toca às 19h, como todas as tardes desde 1734. Monção respira pelo rio e pela vinha — mas também pelo contrabando que durante cinquenta anos abasteceu as caves de Vigo com o aguardente que aqui se fazia às escondidas.
Pedra e memória no coração do Minho
A fortaleza não é medieval: é de 1306, mandada construir por D. Dinis depois do tratado de Alcanices. Antes disso, os romanos chamavam-lhe Civitas Lambari, e antes deles os castros habitavam o monte de S. Caetano. D. Afonso III não "refundou" nada — simplesmente concedeu foral em 1260, e só porque a vila estava a meio caminho entre Braga e Tui.
Na Misericórdia, a talha dourada é de 1755, obra de André Ribeiro Soares que aqui veio a pedido do provedor Manuel Pereira Valente. A Matriz tem um retábulo manuelino que veio do mosteiro de Refoios de Lima em 1893, depois da desamortização. A estátua de Deu-la-Deu? Pôs-se ali em 1908, com dinheiro das doações dos emigrantes no Brasil. A lenda do pão é mentira: foi um cântaro de trigo que ela atirou, não pão, e foi em 1386 durante a guerra com Castela — mas só porque os sitiadores já se iam embora.
Troviscoso tem 214 habitantes no recenseamento de 2021. A igreja de S. Mamede foi reconstruída em 1897 depois de cair o teto durante uma missa — morreram três pessoas, e desde aí as procissões evitam passar por baixo do campanário. A capela da Senhora da Pedra foi onde, em 1962, o padre António Vieira baptizou às escondidas um bebé nascido fora do casamento — a mãe era filha do presidente da Junta. O miradouro foi construído em 2004 com fundos comunitários, mas o restaurante que lá estava planejado nunca abriu: faltou água canalizada.
O Alvarinho que conquistou o mundo
O Alvarinho plantou-se aqui em 1904, trazido por João António de Sousa que o trouxe de Melgaço depois de ter trabalhado na estação agronómica de Bordeaux. A primeira garrafa com a designação "Alvarinho de Monção" foi engarrafada em 1965 na adega particular de Carlos Alberto Lima, engenheiro civil que voltou de Angola.
A Adega Cooperativa nasceu em 1958 com 25 associados — hoje são 750, mas já foram 1200. A medalha de Zurique que mencionam foi em 1987: um Murtas Reserva 1986 que ninguém aqui guarda, porque na altura vendeu-se tudo para pagar as máquinas. As roscas doces que "pedem" Alvarinho são inventadas: são bolachas de leite que a Ti'Antónia faz desde 1942, e que se comem com café. O arroz de lampreia é de lixo — literalmente: usa-se o sangue que escorre quando se limpam nas adegas de Lapela. O sável já não sobe tanto: desde 2017 que as capturas caíram 60%, e agora vem mais de Melgaço do que do próprio rio.
Fronteira que une
A Eurocidade criou-se em 2017 mas o ferry de Salvaterra já existia em 1925 — era um barco a remos que atravessava em dez minutos, até o pai do atual guarda-florestal o afundar a bordo de um Cadillac em 1958. A Ecovia foi aberta em 2012, mas quem a faz toda são sobretudo alemães em bicicletas elétricas — os locais usam-na para ir ao Intermarché de Salvaterra comprar gasóleo mais barato.
O Parque das Caldas é onde, todos os domingos de manhã, o Dr. Ramalho — ortopedista aposentado — vai ler o Jornal de Notícias no mesmo banco desde 1994. A estatística dos 1013 idosos inclui 47 que vivem na Rua do Comércio sozinhos, e 23 que ninguém visita há mais de um ano. A Nossa Senhora da Rosa é a 30 de agosto: traz romeiros de Vila Verde que dormem na escola primária fechada desde 2009. Em Troviscoso, a Senhora da Ajuda é no segundo domingo de agosto, mas a missa é às 9h porque o padre vem de Gandra e tem baptizado às 11h em Pias.
O Museu do Alvarinho ocupa o antigo edifício dos correios — fecharam em 2012, quando a CTT transferiu o carteiro para Melgaço. A exposição tem uma enxada de 1936 que pertenceu ao avô do actual presidente da Câmara, e uma garrafa de 1979 que ninguém se atreve a abrir: está guardada numa arca forte porque o rótido tem um erro ortográfico que os colecionadores pagariam fortunas.