Artigo completo sobre Podame: onde a Geira romana ainda marca o caminho
Quatro miliários romanos e a antiga via XIX atravessam esta aldeia minhota junto ao rio Mouro
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O granito aquece ao sol da manhã enquanto os pés calcorreiam a velha calçada romana. Entre os muros de pedra que recortam a veiga, a ribeira de Podame murmura num registo baixo, quase secreto. Aqui, no ponto onde os caminhos se cruzavam há dois mil anos, o silêncio da aldeia guarda ainda o eco de uma geografia que sempre foi passagem.
Pedras que contam milénios
A via XIX, a Geira que ligava Bracara Augusta a Asturica Augusta, atravessa Podame deixando marcas visíveis no território. Quatro miliários romanos permanecem de pé — alguns com inscrições do século III ainda legíveis, classificados como Imóvel de Interesse Público desde 1970. O Caminho dos Miliários, trilho pedestre de 2,5 quilómetros, permite percorrer este traçado antigo entre muros de granito e parcelas agrícolas onde o milho e a vinha se alternam. O topónimo revela a vocação do lugar: 'Podame' vem do galaico 'podam', ponto de encontro, local de paragem. No lugar de Albergaria, o nome preserva a memória do hospital de peregrinos mencionado nas "Inquirições" de 1220, que acolhia viajantes da estrada imperial.
A veiga e a ribeira
A paisagem organiza-se em veiga minhota, com solos férteis divididos por muros secos de granito cinza. A ribeira de Podame nasce no Monte Castelo e percorre 8 quilómetros antes de se entregar ao rio Mouro, afluente do rio Minho. Este corre exactamente 3,2 quilómetros a oeste, definindo a fronteira com a Galiza. As margens da ribeira oferecem refúgio a garças-reais e melros-d'água; ao entardecer, o chilrear denso dos pardais concentra-se nas amoreiras plantadas nos anos 50 do século XX junto às casas de pedra e cal.
Agosto e setembro em festa
A primeira semana de agosto traz a Festa de Nossa Senhora da Rosa, com procissão, arraial e as sopas da caridade distribuídas à porta da Igreja Paroquial — construída em 1756 com traça barroca onde o sino da fábrica de Braga marca as horas num ritmo que a povoação conhece de cor. A 15 de setembro, Nossa Senhora das Dores convoca nova romaria, com cavalhadas e missa cantada. Nestas ocasiões, o fumeiro abre-se e a carne de Barrosã DOP chega à mesa em rojões à minhota, acompanhados de arroz de sarrabulho e vinho verde Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço. O cabrito assado no forno de lenha perfuma as ruas estreitas; os doces conventuais de Santa Luzia, feitos segundo receita do Mosteiro de São Bento de Cástris, fecham a refeição.
O malho e os dias comuns
Podame é uma das 14 freguesias do concelho onde ainda se joga o malho — jogo tradicional de paus atirados ao ar livre, disputado no terreiro junto ao campo de futebol nos domingos após a missa. Nos dias sem festa, a aldeia vive do ritmo agrícola e do peso demográfico de uma população profundamente envelhecida: 132 idosos (49,8%) para apenas 16 jovens até 14 anos (6%). As vinhas sobem os socalcos em socalcos de 1,5 metros de largura; o granito das casas ganha tons de musgo nas fachadas viradas a norte, onde o sol não chega.
O cruzeiro setecentista junto à igreja projecta uma sombra curta ao meio-dia. Ao longe, a ribeira continua o seu murmúrio invariável, companhia constante de quem caminha entre os miliários e sente o peso silencioso das gerações que por aqui passaram, pararam, seguiram viagem.