Artigo completo sobre Portela: Vinhas Antigas e Silêncio nas Encostas
202 habitantes preservam tradição vinícola e pecuária a 397 metros de altitude
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A estrada sobe tanto que o carro parece que vai empinar. Depois, de repente, lá está ela: Portela, agarrada ao outeiro como quem se agarra ao balcão do café a ver passar a vida. Duzentos e dois habitantes, dizem os papéis. E eu digo: contando com os cachorros e as galinhas, talvez chegue aos trezentos.
O que se vê de primeira são as vinhas. Baixinhas, feias de bonitas, com aqueles troncos retorcidos que parecem braços de velho a pedir esmola de sol. É tudo Vinho Verde, mas não venham cá com histórias de "terroir" e "notas de fruta". Aqui faz-se vinho como sempre se fez: com uvas que sabem ao trabalho de um ano inteiro, com azia que corta a gordura do rojão e com álcool suficiente para fazer o Zé António dançar na festa.
Falando nisso, há duas festas. A da Senhora da Rosa e a da Senhora das Dores. São como o Natal e o Aniversário - a malta que se foi embora vem cá parar, finge que não mudou, come bifanas até lhe doer a alma e vai-se embora outra vez. Fica a aldeia mais quieta que um confessionário à segunda-feira.
As casas são de xisto, como deve ser. Algumas têm o fumeiro ainda a fazer lembrar que o porco foi abatido em Dezembro. Outras estão fechadas desde que a Manuela foi para França e nunca mais voltou. Mas a porta está lá, como quem diz: "pode ser que um dia..."
Entre as vinhas, umas vacas da Cachena pastam à vontade. São aquelas que parecem vacas de desenho animado - pequenas, com olhar de quem está sempre a pedir desculpa por alguma coisa. A carne, essa, é outra conversa. É das poucas coisas que não precisa de molho para mentir sobre o sabor.
Às seis da tarde, quando o sol começa a baixar e pinta tudo de dourado, é o melhor momento. Não há monumentos, não há miradouros com selfies. Há só aquela paz de quem sabe que amanhã há mais vinha a podar, mais gado a tratar, mais uma garrafa de branco na mesa do café. E pronto. Nem sempre as coisas precisam de ser mais que isto.