Artigo completo sobre Riba de Mouro: altitude, granito e pastagens de montanha
Freguesia de Monção a 732 metros, entre carnes DOP, vinhos verdes e o ritmo lento da serra
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O sino da igreja marca as horas com um eco que se perde entre os vales. A 732 metros de altitude, Riba de Mouro estende-se numa paisagem onde o granito aflora entre os campos de cultivo e os caminhos de terra batida. O ar aqui carrega o frio da montanha, mesmo nos dias de sol — uma frescura que se cola à pele e explica porque é que os casacos de lã nunca ficam muito tempo pendurados no bengaleiro.
Com 802 habitantes distribuídos por 14,08 km², esta freguesia de Monção vive num ritmo próprio, ditado pelas estações e pelo trabalho da terra. A densidade populacional baixa — 57 habitantes por quilómetro quadrado — traduz-se em horizontes largos onde o olhar encontra mais verde do que construção, mais silêncio do que movimento. Nas ruas, o encontro entre gerações revela um desequilíbrio: 42 jovens até aos 14 anos para 209 idosos acima dos 65 anos (Censos 2021). As conversas à porta das casas acontecem em vozes que conhecem cada recanto, cada família, cada história que o tempo foi acumulando nas pedras das casas antigas.
A terra e o que dela vem
O território de Riba de Mouro integra a Região Demarcada dos Vinhos Verdes desde 1908. A altitude e a exposição solar dos socalcos moldam o Loureiro e o Trajadura plantados nas encostas mais amenas, embora os 35 produtores registados na freguesia dediquem mais espaço aos pastos do que à vinha. É terra de Carne Barrosã DOP — com os bovins a pastar nos campos comunais desde 1996 — e onde o gado Cachena, com a sua DOP própria desde 1998, desce dos pastos da Peneda para os lameiros de Riba de Mouro entre maio e outubro.
A carne barrosã, com a sua infiltração de gordura intramuscular, chega às mesas locais em bitoques no Café Central ou em rojões na Tasquinha da Ti'Lena. O pão de centeio do forno de Lamas de Mouro — que abre às sextas-feiras quando o Sr. Armindo acende o forno de lenha — acompanha os enchidos fumados na chaminé das casas durante o inverno. O caldo verde leva a couve-galega do quintal da Dona Albertina, que ainda mantém os sementais que a mãe lhe deixou em 1973.
Devoções de verão
A Festa de Nossa Senhora da Rosa, no primeiro domingo de agosto, traz o forró de Artur e os filhos que emigraram para a Suíça. A procissão parte da igreja matriz às 16h30, tal como consta no livro de actas da Irmandade desde 1954, subindo a Rua da Igreja onde ainda se vêem as marcas das rodas dos carros de bois no granito. À noite, o arraial monta-se no terreno da "Escola Velha" — encerrada em 2009 quando restaram apenas 7 alunos — com as sardinhas da Zé da Tasca a 3 euros cada e o vinho branco do Basílio a escorregar por 1,50 o copo.
Onde o tempo se mede de outra forma
Riba de Mouro não oferece monumentos classificados nem miradouros assinalados em guias. O que oferece é a possibilidade de caminhar pela Estrada Municipal 525 — onde se cruzam mais vacas do que carros — de ouvir o cortejo dos cucos na mata de camarinhas sem a interferência de motores, de sentir o peso do granito sob os pés e a temperatura do ar a mudar conforme se sobe para os 834 metros do Marco 122 da geodésica. Os sete alojamentos locais — cinco moradias e dois apartamentos registados no Registo Nacional de Alojamento Local em 2023 — permanecem discretos, integrados na malha habitacional sem alarde.
A luz das 18h30, quando bate nas fachadas de pedra das casas do Lameiro, desenha sombras compridas que sobem pelos muros construídos com a técnica de "jeira" que o Sr. Joaquim — com os seus 87 anos — ainda ensina aos netos nos fins-de-semana. É nessa hora, entre o regresso do gado aos currais e o acender das lareiras, que a freguesia revela o seu ritmo mais verdadeiro: um lugar onde 43% da população activa ainda trabalha directamente com a terra, onde a Dona Amélia — nascida em 1934 — detém a memória dos caminhos que ligavam Riba de Mouro a Lamas de Mouro antes da estrada asfaltada de 1962, e onde o futuro se escreve devagar, ao som de um sino que continua a marcar as horas como sempre marcou.