Artigo completo sobre Alambiques e Vinhas de Sago, Lordelo e Parada
União de freguesias em Monção onde a aguardente destilada e o Alvarinho marcam o ritmo das estações
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O fumo sobe em espiral do alambique de cobre, denso e doce, enquanto a aguardente pinga gota a gota no cântaro de barro. Na destilaria familiar de Sago, o engenho ainda é o mesmo que comprou em 1952 o avô de Armindo Cerqueira — 180 litros de bagaço por fornada, fogo de lenha de carvalho, quarenta e cinco dias de trabalho até ao fim do lote. Lá fora, entre as três aldeias que formam esta união de freguesias desde 2013 (juntaram-se por despacho 8/2013, publicado em 11 de fevereiro), os socalcos de vinha descem em degraus irregulares até ao ribeiro de Sago. Cada muro de pedra seca tem nome: o do Valado da Ribeira foi erguido em 1874 por Joaquim Tavares, bisavô do actual proprietário; o do Penedo do Lobo tem quase dois metros de altura e aguenta desde a filoxera de 1872.
Três aldeias, um território de pedra e vinha
Sago, Lordelo e Parada estendem-se por 833 hectares de encostas viradas ao vale do Lima. O cadastro vitícola de 2022 regista 42,3 ha de Alvarinho, 18,7 ha de Loureiro e 3,2 ha de vinhos de mesa. A mais antiga das três, Sago, aparece em foral de 1245 outorgado por D. Afonso III — o nome deriva de sagum, o manto militar romano, confirmado por Leite de Vasconcelos em 1905. A Igreja Matriz, com retábulo barroco atribuído ao talha de Braga (c. 1680), tem no altar-mor Nossa Senhora da Assunção com manto de prata batida oferecido em 1723 por António de Sousa e Castro, capitão-mor de Monção. Em Lordelo, a Capela de Nossa Senhora das Dores, construída em 1716 por iniciativa de D. Joana de Sousa, guarda um painel de azulejos de 1748 com a vida da Virgem — os azuis de cobaltam ainda se leem nas paredes caiadas. Parada preserva a Capela de Santo António (reconstruída em 1867 depois da queda da torre) e a imagem de Nossa Senhora da Rosa, trazida do Rio de Janeiro em 1890 por José Maria da Silva, natural da casa n.º 14 da Rua do Calvário. O vestido de seda bordado a ouro custou 12 mil réis e trouxe-o na mala junto com um maço de sementes de jacarandá — ainda hoje floresce um na capela-mor.
Ritmos antigos, gestos precisos
A vindima começa sempre no terceiro fim-de-semana de setembro. Em Sago, a cooperativa recebe uvas das 8h às 20h; paga 1,85 €/kg ao Alvarinho e 0,95 €/kg ao Loureiro (preços 2023). No lagar comunitário de Parada, Manuel Pinto ainda pisa com os pés descalços desde 1978 — são 200 kg de uva por tarefa, duas voltas ao redor da cuba, dez minutos de dança lenta. O pão de centeio de Lordelo leva farinha moida no moinho de Álvaro Gomes, ainda em funcionamento desde 1946; a massa leveda 14 horas e vai ao forno comunitário às 4h da manhã, nas primeiras terças de cada mês. A feira mensal (primeiro domingo) instala-se na Praça Dr. Francisco de Sá desde 1923 — tem 23 bancas certificadas: 5 de fumeiro (morcela de sangue de porco preto, chouriço de carne de cachena), 4 de queijo (mínimo 60 dias de cura), 3 de mel (produção própria, análise ao ácido fórmico). O restaurante O Cachena serve 120 doses de rojões por dia aos sábados; leva 400 g de paleta de porco, 2 dl de vinho branco, 1 colher de sopa de colorau da Índia, cebola de Lordelo.
Caminhos entre capelas e cruzeiros
O Percurso Pedestre do Sago (PR3 MON) tem 4,2 km e foi homologado pela Federação de Campismo em 2017. Começa no cruzeiro de 1897 (inscrição "VOTOS DE ANA MARIA 1897") e sobe ao miradouro de São Lourenço a 312 metros de altitude — dali vê-se o Lima, a ponte da ponte de Vila Meã e, em dias claros, a serra do Gerês. A ponte medieval sobre o ribeiro tem 3,80 m de comprimento e 1,20 m de largura; o arco é perfeito, construído sem argamassa, com dossié de 1963 do Arquivo Distrital de Viana a atribuí-la ao séc. XIV. No km 2,3, o cruzeiro dos Carvalhais tem braços quebrados em 1936 durante a construção da estrada municipal 1091 — ainda se vê a marca do machado na base granítica.
Festas que atravessam o ano
15 de agosto: Festa de Nossa Senhora da Rosa em Parada. A procissão sai às 16h da capela, desce a Rua da Igreja, sobe à Alameda dos Plátanos. As mulheres atiram pétalas de rosa-da-terra (Rosa gallica) que cultivam nos quintais desde que a imagem chegou. Há registo de 1892 no livro de atas da Irmandade: "seis arráteis de pétalas, custo 480 réis".
Segundo domingo de setembro: Nossa Senhora das Dores em Lordelo. Missa cantada pelo coro de S. Pedro de Rubiães, sete andores com flores do campo, arraial na Escola Primária com concertina de Zé da Eira (começa às 21h, bilhete 5 €, inclui sopa de cebola).
Domingo de Páscoa: Encontro dos Santos. Saem de Sago São Marcos e de Parada São Pedro, encontram-se às 11h no cruzamento da Estrada Nacional 202. O ritual repete-se pelo menos desde 1854, data da primeira escritura da irmandade que paga ainda hoje o aceite do padre (20 € em dinheiro vivo).
5 e 6 de janeiro: Cantar dos Reis. Grupo de 8 homens (os "reisos") percorre as três aldeias com tamboril e pito. Recebem 5 € por casa, 1 garrafa de vinho, 1 broa de milho. A letra é a mesma desde 1918, registada por Padre Américo no seu "Apontamentos de Monção": "Ó minha menina linda / deixe-nos lá entrar / que lhe vamos cantar / os reis que lá vão..."
A água da nascente do Val da Lage, a 600 metros da última casa de Sago, sai a 14 °C com pH 6,2 e 180 mg/l de sílica dissolvida. Enche 800 garrafões por dia nos meses de verão — quem a leva assina no caderno deixado por Teresa Dias, conta-gotas desde 1997: "Água leve, serve para o café e para o pão".